26 de mar de 2017

PORTFÓLIO: INSTRUMENTO DE METACOGNIÇÃO PARA OS PROFESSORES EM SEU PROCESSO REFLEXIVO NA ATIVIDADE DOCENTE

Artigo Especial - Ano 2016 - Volume 33 - Edição 100

PORTFÓLIO: INSTRUMENTO DE METACOGNIÇÃO PARA OS PROFESSORES EM SEU PROCESSO REFLEXIVO NA ATIVIDADE DOCENTE

RESUMO
Ao analisarmos a dinâmica escolar, constatamos os vários desafios enfrentados pelo professor em seu cotidiano, ressaltando assim a importância do processo reflexivo nesta rotina para auxiliá-lo a conhecer seu próprio processo de aprendizagem, possibilitando o desenvolvimento de habilidades que ampliem seus recursos de observação em relação aos seus alunos. Dessa forma, a proposta de intervenção psicopedagógica institucional ressalta a construção do portfólio do professor sobre o seu percurso profissional, tendo como objetivo o conhecimento de seu processo de busca e aprendizagem. Trata-se, portanto, de uma abordagem que provoca o autoconhecimento do professor, com o intuito de aproximá-lo de seus alunos por meio de observação e elaboração de atividades voltadas para as modalidades de aprendizagem destes.
Palavras-chave: Aprendizagem. Metacognição. Autoavaliação.
ABSTRACT
After analyzing school dynamics, we have identified various challenges faced by teachers in their daily teaching routine. This finding led to the importance of applying a reflexive process in this routine in order to help teachers know their own learning processes that may enable the development of some skills to widen their observation resources towards their pupils. Therefore, the proposal of an institutional psychopedagogic intervention highlights the construction of teachers´ portfolio along their professional journey in order to keep their search and learning processes. Thus, this approach causes teachers ´self-knowledge making the contact with their pupils closer on the basis of observation and development of activities addressing pupils´ learning modalities.
Keywords: Learning. Metacognition. Self-assessment.

INTRODUÇÃO
A vida dos professores é bem complexa, pois tomam decisões constantemente sobre o planejamento pedagógico, como responder a uma pergunta ou como reagir a uma conduta, como estimular a um aluno pouco envolvido, como administrar o grupo.
Indisciplina, dispersão e inconveniência perturbam a realização das propostas ou tarefas pedagógicas. O sentimento é de perda de tempo, caos espacial e descuido com objetos escolares, falta de sentido das tarefas e relações entre pessoas marcadas pela indiferença ou pela negatividade. A sensação final é de incompetência, insuficiência e desânimo. Para isto dependem de seus próprios critérios e de sua intuição.
E para os alunos? Como fica? Se não obedecem às regras, se não aprendem o mínimo, se não aceitam a cultura da escola, são excluídos e reprovados.
Partimos do referencial teórico de que a aprendizagem é uma atividade de interação social, que contempla aspectos cognitivos e aspectos afetivos. Por essa razão, necessitamos de metodologias que auxiliam uma prática reflexiva, como, por exemplo, a conscientização dos processos emocionais e atitudinais, a interação entre colegas, o trabalho em equipe.
Sabemos que, se o acesso escolar está cada vez mais garantido, o cotidiano em sala de aula mostra o quanto ainda estamos distantes das outras expectativas (percurso até o final, convivência e aprendizagem significativa).
Os dilemas fazem parte da vida cotidiana nas salas de aula, transformam-se em desafios para a profissão e espaços de aprendizagem profissional, instrumento para análise e melhoria das aulas.
Os professores vão desenvolvendo sua própria ação, mantendo um ir e vir entre o que sabem e o que não sabem, entre o que tem que fazer e o que podem fazer, entre o que experimentaram anteriormente e a necessidade de introduzir inovação no momento atual.
Nem sempre o processo de identificação ou de resolução dos dilemas é consciente, pois as aulas são contextos de complexidade, marcados pela imprevisibilidade, como acabamos de descrever.
As aulas são "sistemas abertos"1, passíveis do princípio de equifinalidade, isto é, comportamentos diferentes podem criar a mesma consequência, portanto o desenvolvimento do processo não dependerá das suas condições de início, e sim da forma como é desenvolvido.
Portanto, aquela "velha forma" de se trabalhar com um determinado conteúdo pode ser pensada de outra maneira, tentando garantir, assim, um melhor aproveitamento do grupo de alunos2.
Os dilemas nos remetem a desenvolvermos habilidades, seja com o espaço: guardar, encontrar, desenvolver, dispor, localizar; seja com o tempo: agendar, estimar, antecipar, selecionar ou dar prioridade, lembrar.
Tais habilidades complementam-se com as habilidades que se referem às tarefas ou às ações que realizamos com objetos utilizados em sala de aula, o que requer a competência do professor. Se quisermos discriminar habilidade e competência, podemos dizer que, para apresentarmos determinada competência, precisamos desenvolver várias habilidades3.
Os objetos escolares são alguns meios ou recursos que utilizamos para realizar as tarefas. O que são as tarefas escolares? Como restituir seu sentido? Como desenvolver habilidades para a boa realização de uma tarefa?
Para tal, as habilidades necessárias são: valorizar, ser responsável, planejar, definir, desenvolver estratégias ou esquemas de procedimento para sua boa realização, envolver-se, comprometer-se, tornar-se autônomo, compreender sua razão. Dessa forma, estaremos alcançando a competência de administrarmos as tarefas dos alunos e levá-los a fazer o mesmo.
O grande desafio no cotidiano da sala de aula é saber propor tarefas significativas, desafiadoras, realizáveis, que requerem observação, regulação, e que desenvolvem sentimento de domínio e participação. Tarefas compartilhadas, coletivas, que solicitam tomadas de decisão e argumentação; tarefas que colocam situações-problema, cuja execução exala sabor e saber. Tarefas que valem a pena!

UM DILEMA PARA A PSICOPEDAGOGIA INSTITUCIONAL INTERVIR...
Como são as relações entre crianças, professores e alunos ou colegas? O que elas promovem ou dificultam em nossas relações com os aspectos já mencionados?
Como respeitar e possibilitar que os alunos e professores possam ter voz, dizer e assumir suas hipóteses, seus pensamentos e seus sentimentos? Como recuperar nossa autoestima, a importância sociocultural da profissão docente e conquistar melhores condições de trabalho?
Como o professor organiza e favorece diferentes relações em sala de aula? Como distribui as crianças em uma atividade de grupo? Como faz suas intervenções? Como olha, vê, sente e fala com cada criança? Como coordena valores e regras que disciplinam a vida em comum? Como lida com problemas de relacionamento?
Normalmente os professores vão construindo seu "estilo para enfrentar os dilemas" do dia-a-dia. É neste contexto que se pode incorporar mecanismos de reflexão, intercâmbio de experiências e debate com colegas por meio da conversação, documentação, avaliação, pesquisa, etc.
Nas situações de conflito entre professor-aluno ou naquelas em que deparamos com inadequações metodológicas, é necessário passar do nível descritivo para uma narrativa de construção entre os nossos conhecimentos e o contexto em que atuamos com potencialidades reais e em desenvolvimento.
Diante desse quadro, pode-se dizer que ensinar é mover-se profissionalmente em espaços problemáticos, ir resolvendo neles sucessivos dilemas práticos que vão surgindo.

SER PROFESSOR
Sujeito comprometido com o processo de humanização, que faz a educação por meio do ensino, da tarefa de propiciar a apropriação crítica, criativa, duradoura...4
Sabendo que o que nos desgasta não é só a carga de trabalho, mas, sobretudo, a falta de sentido, a falta de retorno do mesmo, para tal é que precisamos nos capacitar - para enfrentarmos os dilemas: É da tensão entre realidade e desafio que emergirá o plano de ação; nesse momento, o professor precisa de um mediador, que possa compreender e trazer-lhe através de sua escuta, a possibilidade do professor descobrir novos caminhos, ideias novas ou mais adequadas, que ele mesmo pode encontrar em seu "arquivo mental". O psicopedagogo é o mediador que possibilita ao professor tomar consciência dos aspectos envolvidos, sistematizar, criticar, potencializar, superar.
Segundo Senge2, o caminho para se transformar uma rotina é a criação de um novo plano de ação, que é fruto tanto da percepção de uma necessidade quanto da clareza de uma finalidade.
Aprender está relacionado com a elaboração de uma conversa cultural, na qual se aprende a dar sentido, na medida em que se pretende conectar-se com os dilemas presentes em nosso cotidiano. Aqui se estabelece a necessidade de aprender a partir do diálogo, da colaboração e do intercâmbio, é o que chamamos de conversação, numa visão construcionista5.
O ponto essencial dessa proposição é que coloca no diálogo e na responsabilidade para aprender, a mudança de rumo que significa passar da centralidade na aprendizagem individual à colaboração entre os que aprendem (educadores e alunos), por meio de uma desconstrução do dilema inicial.
Essa perspectiva assume um enfoque holístico do processo de ensinar e aprender. Significa levar em conta os aspectos emocionais da aprendizagem, a dinâmica de aprender com outros grupos, a significação do contexto e os propósitos, os efeitos e os resultados dessa aprendizagem.
O diálogo supõe considerar que aprender é construir uma narrativa para ser compartilhada com os outros. É entendido como intercâmbio e reflexão sobre "o que se diz", sobre o relato que se constrói de forma polivocal5.
O diálogo favorece aos alunos mostrarem-se ativos em sua aprendizagem e determinarem a direção desta (se o professor for capaz de desenvolver uma interpretação do que se supõe que deve ser uma escuta atenta).
Nessa concepção de diálogo ou de conversação, o que se pretende é oferecer oportunidades aos alunos (e que eles aprendam a gerá-las) para pensar sobre "questões difíceis", para expandir, reconsiderar uma questão ou um problema e procurar compreendê-lo de diferentes maneiras2.
Favorecer a aprendizagem a partir do diálogo requer por parte do professor uma observação atenta sobre o seu próprio processo de aprendizagem e a partir daí refinar seu olhar e sua escuta das potencialidades e dificuldades do grupo. A função do docente é estimular o diálogo entre e com os estudantes, com base na experiência compartilhada que estão produzindo. O psicopedagogo, ao mediar os impasses do cotidiano escolar, atua para compartilhar as histórias dos professores.

SER UM PROFESSOR REFLEXIVO
O conceito de professor reflexivo baseia-se na capacidade de pensamento e reflexão que caracteriza o ser humano como criativo, e não como mero reprodutor de ideias e práticas4.
A escola deve ser organizada para criar espaços de reflexividade individual e coletiva, por essa razão o professor deve olhar para o ato de ensinar, assim como para o ato de aprender. Ainda segundo Alarcão4, o professor precisa dialogar com a situação, consigo próprio, com teóricos, para que a aprendizagem seja desenvolvida como processo transformador da experiência. Para que a construção do saber seja um fato, é necessário que o educador seja reflexivo para desenvolver um status mais autônomo.
Os teóricos apontam como propostas para esta ação o desenvolvimento de projetos, por meio dos quais o professor assuma seu protagonismo e avalie sua formação.
Analisando uma intervenção psicopedagógica institucional, constatamos que uma prática reflexiva foi a elaboração do portfólio, o qual contribuiu para que os profissionais se apropriassem de sua evolução profissional. As narrativas dão suporte aos relatos de caso, possibilitando o caráter autobiográfico e os casos são narrativas elaboradas com o objetivo de viabilizar o conhecimento, garantindo mecanismos de aprofundamento conceptual continuado, por meio do relacionamento entre membros dos contextos profissionais.

O QUE É O PORTFÓLIO?
Para Shores e Grace (apud Rangel & Garfinkel6), o portfólio é uma coleção de todo o trabalho em andamento na vida profissional de uma pessoa. Consiste na documentação dos trabalhos já realizados ou que estão em andamento, estejam esses trabalhos relacionados de alguma forma entre si ou não.
Para Tonet7, o portfólio viabiliza o conhecimento sobre os próprios processos e produtos cognitivos, assim como permite associar as realizações do professor à aquisição de conhecimentos e competências e evidencia as épocas de maior incremento e crescimento pessoal, permite identificar os intervalos de debilidade e inércia.
O portfólio é um instrumento que revela as competências significativas para atender às demandas dos momentos presente e futuro, contribuindo para que o professor tome consciência de sua evolução e assuma postura proativa frente à construção de sua carreira profissional. Segundo Rangel & Garfinkel6, o portfólio possibilita a manifestação da subjetividade, com a declaração de suas crenças e metas pessoais em relação à carreira que abraçou.
O portfólio pode conter um material acumulado pelo desenvolvimento de um conjunto de ações. Pode documentar situações interpessoais, que individualmente agregam valores ao processo por meio de experiência desenvolvida dentro de um determinado período de tempo.
O uso desse recurso será tão ou mais eficaz considerando-se que o psicopedagogo conheça a realidade em que o professor atua, observe sua dinâmica pedagógica e reelabore junto com ele a conduta pedagógica mais adequada à realidade de sua sala de aula.

O QUE É METACOGNIÇÃO?
Segundo Portilho8, metacognição é a compreensão sobre o conhecimento e o saber… Inclui o conhecimento das capacidades e das limitações dos processos do pensamento humano.
A metacognição possibilita o conhecimento autorreflexivo (Burón, 1997, apud Portilho8) adquirido pela auto-observação. Já para Mayor (apud Portilho8), o modelo de atividade cognitiva consciência/regulação – controle pede atenção e organiza as tarefas para atingir as metas.
Com o foco no desenvolvimento de um comportamento metacognitivo na atuação docente, a intervenção psicopedagógica recorre ao uso de portfólios na educação, pois constitui uma estratégia que tem procurado corresponder à necessidade do profissional apropriar-se de seus valores e competências. Dessa forma, procura estimular sua consciência reflexiva.
De acordo com Mayor, o portfólio faz o papel do controle, supervisiona a atividade cognitiva no curso das tarefas profissionais, por essa razão o portfólio é uma estratégia de formação, de investigação, de avaliação de nossa própria história profissional.
Para que essa construção ocorra de forma eficaz, o processo metacognitivo inclui estratégias de planejamento na condução de sua vida profissional e o portfólio provoca uma estimulação quer ao nível reflexivo, quer ao nível da conscientização das pessoas que os realizam.
Para Tonet7, o portfólio apresenta múltiplos aspectos e dimensões da aprendizagem, enquanto construção de conhecimentos, conhecendo-se mais (apropriando-se melhor), abre possibilidades de perceber e analisar as exigências do mercado de trabalho. É um instrumento que contribui para uma estruturação intrapessoal do conhecimento, facilitando a compreensão dos próprios processos de ensino-aprendizagem, o que propicia a metacognição.
O portfólio fundamenta os processos de reflexão para, na, e sobre a ação, quer na dimensão pessoal, quer profissional, proporcionando um conhecimento metacognitivo. Ele se constitui pela declaração de suas crenças e metas pessoais, tanto ao ensino como em relação à própria carreira que abraçou avaliações de resultados obtidos por seus alunos, avaliações do professor, feitas pelos alunos, planos de trabalho do professor6.
Segundo Solé9, o psicopedagogo é um profissional estratégico e reflexivo que analisa, avalia e interpreta os fenômenos que precisa enfrentar, que contribui com sua visão para que outros tomem decisões que permitam otimizá-los, que colabora, que discute e chega a acordos. Por essa razão, nas intervenções institucionais, o psicopedagogo utiliza instrumentos que possibilitam a prática reflexiva!

COMO CONSTRUIR SEU PORTFÓLIO?
Em um trabalho de assessoria psicopedagógica, propusemos a elaboração do portfólio aos professores de uma rede municipal e lá encontramos alguns relatos que corroboram nossa hipótese de que esse é um instrumento metacognitivo, como podemos ver nos relatos abaixo.
Iniciamos pela elaboração do percurso profissional, desde o seu início até o momento atual. Como exemplo pudemos ver no texto de Fernanda, professora do 4º ano:
"Ingressei no Ensino Médio realizando o Curso Magistério, o qual me proporcionou crescimento teórico e prático por meio de estágios supervisionados, estudos do meio etc. Ao terminar este curso, comecei a trabalhar em escolas particulares de Educação Infantil e, em seguida, tive a oportunidade de lecionar em uma CEI conveniada, onde conheci e convivi com a carência social, mas com o efeito da educação na vida dos alunos em seu desenvolvimento pedagógico, afetivo. Todos os meses ocorriam as chamadas "paradas pedagógicas", para treinamento e capacitação de todos os funcionários, além disso, havia ocasiões para interação com pais, exposição de trabalhos, para maior conhecimento da produção das crianças. Em seguida, passei a lecionar no Ensino Fundamental, o que foi um desafio para mim, e então ingressei no Curso de Graduação em Pedagogia, o que veio agregar o meu conhecimento teórico e um aprofundamento nos estudos sobre alfabetização, pois tive a oportunidade de participar de um projeto que permitia a atuação das alunas nas classes de alfabetização em escolas estaduais. Escolhi como tema de meu TCC "O desafio do processo de alfabetização", o que me proporcionou "um mergulho" maior na proposta construtivista. Como continuidade à minha formação fiz o Curso de Psicopedagogia, o que me deixou como legado conhecimentos mais específicos sobre dificuldades de aprendizagem. Ao final deste curso, escolhi como tema para minha monografia "Compreendendo a modalidade de aprendizagem", pois esta foi uma questão extremamente reveladora para mim durante o curso de Psicopedagogia. Atualmente, trabalho com o 4º ano, o que se constitui em um desafio porque até então só havia trabalhado com classes de idades menores, devo dizer que estou bastante feliz com minhas conquistas!"
Para Alarcão4, ao escrever sobre seu percurso profissional o sujeito passa do nível descritivo para uma narrativa de construção entre os seus conhecimentos (reais e potenciais) e o contexto em que atua, identificando potencialidades reais e potenciais. Em um contexto reflexivo, é possível transformar nossa identidade profissional.
Saímos de um "agir passivo" para sermos "atores ativos" de nosso fazer. Em um contexto reflexivo, podemos aumentar nossa bagagem de conhecimentos profissionais. O "apoderamento" da formação é parte intrínseca da profissão se o professor quer ser protagonista de sua formação e desenvolvimento profissional.
A partir deste relato, Fernanda passou a identificar as dificuldades de aprendizagem de alguns de seus alunos, e a considerar que, em algumas situações, lhe faltava conhecimento (já que agora iniciara o trabalho com um grupo de escolaridade diferente do que vinha tendo) sobre uma forma mais adequada de intervir para auxiliar as crianças nas questões que lhe eram mais complexas. A psicopedagoga que atuava na escola propôs o levantamento de atividades coerentes com a concepção de aprendizagem adotada pela escola, assim como a troca colaborativa com as demais professoras do 4º ano, provocando uma sinergia entre elas.
Assim como Fernanda, as outras professoras dessa mesma instituição iniciaram seus portfólios. Depois do primeiro relato em que destacava a formação, outros registros foram feitos descrevendo as conquistas, as dúvidas, ansiedades da rotina atual, como aponta o início deste artigo, e levá-las a entrarem em contato com seu próprio processo de aprendizagem e, consequentemente, de ensino.
A partir daí as professoras passaram a falar das percepções que vinham tendo por meio das reflexões realizadas. Por exemplo, N. reconheceu sua dificuldade em ouvir as queixas dos alunos e passou a se conscientizar da importância em ouvi-los e compreender o que havia gerado a dificuldade. E. admite que melhorou sua escuta e afirma interferir menos na reflexão dos alunos no momento em que um conteúdo está sendo apresentado. D. percebeu a necessidade de cuidar melhor da linguagem utilizada em suas aulas, o que proporcionou melhor compreensão por parte dos discentes. F. deu-se conta que necessitava estudar melhor a faixa etária com que estava trabalhando neste momento.
Portanto, o portfólio ajuda a analisar os obstáculos (individuais e coletivos) que o profissional encontra, permite associar as realizações do professor ao desenvolvimento de conhecimentos, destaca as situações que evidencia as competências até então fragilizadas e que puderam ser otimizadas depois de uma intervenção reflexiva. O psicopedagogo deve ser hábil em estimular a competência interpessoal entre os professores.
Como resultado da intervenção, D. afirma, ainda, que lhe inquietava ver crianças não conseguirem atingir o nível de leitura e escrita esperado para o ano escolar, fazendo com que ela investisse em atividades diversificadas favoráveis ao aprendizado de vários alunos. Já N. procurou modificar as avaliações aplicadas em função das dificuldades de aprendizagem observadas em seu grupo; isto pode ocorrer pelo estudo proposto pela psicopedagoga ao grupo de professoras sobre avaliação processual, uma temática tão controversa no âmbito educacional. F. afirma que o trabalho psicopedagógico que lhe fora proposto levou-a a estudar mais sobre o processo de elaboração do pensamento e da linguagem, identificando, portanto, alguns pontos frágeis de sua formação. D., por exemplo, reconhece que deve sempre se esforçar para superar alguns medos decorrentes de suas inseguranças e da realidade escolar com que convive.
Em todos os casos mencionados, nota-se que as professoras passaram a perceber melhor a própria atuação, refletindo sobre os aspectos vulneráveis de sua formação e da prática pedagógica. Diante disto, ao lado da psicopedagoga, puderam realizar um trabalho de autocrítica e buscar mudanças em seus recursos metodológicos, o que possibilitou a transformação da modalidade de ensino dessas docentes.
Além do exposto em relação ao trabalho realizado junto a esse grupo de professoras, devemos acrescentar que outros itens podem ser acrescentados a um portfólio, como vemos a seguir:
  • Declaração de suas crenças e metas pessoais, tanto ao ensino como em relação à própria carreira que abraçou;
  • Avaliações de resultados obtidos por seus alunos: resultado de um projeto com o objetivo de obter uma melhor aprendizagem em relação a algum conteúdo;
  • Avaliações do professor, feitas pelos alunos (como agradecimento a resultados obtidos);
  • Comprovações de atividades relevantes realizadas, que agreguem valor ao seu desempenho como docente, como, por exemplo: coordenação de evento em sua escola (feira cultural, feira de ciências, etc);
  • Focaliza os momentos mais significativos dentro da história de trabalho de cada um.
  • A escola é o espaço de aprendizagem e de manifestações afetivas que podem ser determinantes na definição de um projeto de vida. É um dos espaços onde se constroem os modelos organizadores do pensamento. À medida que a instituição educacional introduz a intervenção psicopedagógica em seu contexto, abre horizontes para uma educação mais eficiente, porque traz consigo a real possibilidade de uma docência melhor qualificada!

    CONSIDERAÇÕES FINAIS
    Para Tonet7, o portfólio permite associar as realizações do professor à aquisição de conhecimentos e competências, focalizando o momento da avaliação dentro da história de trabalho de cada um. Além disso, evidencia as épocas de maior realização e crescimento pessoal, permite identificar os intervalos de menor produtividade.
    Retrata os fatos ou situações que denotam as competências significativas para atender às demandas dos momentos presente e futuro, contribuindo para que o professor tome consciência de sua evolução e assuma postura proativa frente à construção de sua carreira profissional.
    Para que essa intervenção ocorra de maneira eficaz, o psicopedagogo em sua ação mediadora ajuda a analisar os elementos que estão gerando obstáculos ou conflitos em função das dificuldades de aprendizagem apresentadas pelos alunos, ele é o mediador de um processo reflexivo assumindo o papel de colaborador. A intervenção dá-se por meio da dialética do aprender.
    A intervenção psicopedagógica resulta, portanto, em duas narrativas: aquela apresentada pelo mediador (psicopedagogo), construída por meio de recursos (portfólio), e a dos professores, que passa a ser reconstruída ao escrever e documentar sua vida profissional.
    Professor que "investe" em sua formação atinge sua emancipação! Conhecendo-se mais (apropriando-se melhor), abre possibilidades de perceber e analisar as exigências do mercado de trabalho. É dessa forma que atinge o conhecimento metacognitivo, identificando cada vez melhor e mais facilmente as suas carências e já reconhecendo seu processo de busca. Para Imbernón10, "é o apoderamento da formação passando a ser parte intrínseca da profissão se o professorado quer ser protagonista de sua formação e desenvolvimento profissional".

    REFERÊNCIAS
    1. Rapizo R. Teoria sistêmica de família: da instrução à construção. Rio de Janeiro: NOOS; 2002.
    2. Senge P. Escolas que aprendem. Porto Alegre: Artmed; 2005.
    3. Macedo L. Ensaios pedagógicos: como construir uma escola para todos? Porto Alegre: Artmed; 2005.
    4. Alarcão I. Professores reflexivos em uma escola reflexiva. São Paulo: Cortez; 2005.
    5. Anderson A, Goolishian H. O cliente é o especialista: a abordagem terapêutica do não saber. In: Gergen KJ, Macnamee S, eds. A terapia como construção social. Porto Alegre: Artmed; 1998. p.51-65.
    6. Rangel JNM, Garfinkel M. O portfólio e a autoria de pensamento: um estudo na Psicopedagogia. Rev Psicopedagogia. 2007;24(73):9-17.
    7. Tonet HC. Consultoria em avaliação de desempenho: uma área de atuação do psicopedagogo. Rev Psicopedagogia. 2004;21(66):256-68.
    8. Portilho E. Como se aprende? Estratégias, estilos e metacognição. Rio de Janeiro: Wak; 2011.
    9. Solé I. Orientação educacional e intervenção psicopedagógica. Porto Alegre: Artmed; 2001.
    10. Imbernón F. Formação permanente do professorado: novas tendências. São Paulo: Cortez; 2009.


    Pedagoga, Especialista em Psicopedagogia, Mestre em Psicologia, Formação em Terapia de Casal e Família, Conselheira Vitalícia da ABPp-Nacional e Seção São Paulo, São Paulo, SP, Brasil
    Correspondência
    Mônica Mendes
    Av. Açocê, 296 ap 52
    São Paulo, SP, Brasil - CEP 04075-021
    E-mail: monica.mendes51@gmail.com
    Artigo recebido: 18/1/2016
    Aprovado: 21/3/2016

    Trabalho realizado no consultório da autora, São Paulo, SP, Brasil.

    Fonte: http://www.revistapsicopedagogia.com.br/detalhes/19/portfolio--instrumento-de-metacognicao-para-os-professores-em-seu-processo-reflexivo-na-atividade-docente

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