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26 de mar. de 2017

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Entender o cérebro para educar melhor - Entrevista com a Dra. Nadia Bossa



Entrevista com a Dra. Nadia Bossa  - Revista Patio Abril 2013 Número 35
Os estudos empreendidos pelas neurociências são de grande importância para a educação de crianças pequenas, pois permitem compreender o funcionamento do cérebro humano e, assim, proporcionar um melhor cuidado aos bebês. Hoje é possível entender as bases científicas de algumas práticas que dão resultado e saber por que outras não devem ser adotadas, traçando um mapa para que os educadores possam guiar-se e oferecer aos pequenos os recursos mais adequados à sua formação.
Nesta entrevista, a psicopedagoga Nadia Bossa discute algumas das contribuições das neurociências para a compreensão do funcionamento do cérebro e sua aplicação na educação infantil. Especialista em neuropsicologia e doutora em Psicologia e Educação, ela foi professora da PUC-SP e de outras instituições de ensino superior. Atualmente, dirige a Clínica CEAP — Centro de Estudos e Atendimento Psicopedagógico, em São Paulo, e participa como professora colaboradora na elaboração de projetos de cursos de graduação e pós-graduação nas áreas da pedagogia, psicologia e psicopedagogia em universidades de vários estados brasileiros.
Neurociências vêm ganhando espaço na compreensão dos processos de aprendizagem das crianças. Como a senhora vê esse movimento?

Vejo como uma possibilidade de constatar empiricamente alguns pressupostos já estabelecidos pela análise cognitivo-comportamental, bem como o desenvolvimento de novas metodologias de ensino e intervenção a partir dos achados das neurociências. Ou seja: a correspondência entre determinado tipo de estímulo e a resposta cerebral, em certa medida, já é conhecida pelas teorias que se baseiam na análise experimental do comportamento. Porém, com as neurociências e os equipamentos não invasivos, como a ressonância magnética funcional (RMF), as possibilidades de observar o funcionamento cerebral in vivo ampliam a nossa compreensão sobre os processos mentais, clareando a relação entre cérebro, comportamento e cognição.
Como as neurociências podem contribuir para qualificar a educação, sobretudo a dos bebês?
Uma vez que o cérebro é mais bem-mapeado pelos achados das neurociências, é possível planejar com maior margem de acerto a educação da criança em todas as etapas do desenvolvimento. Por exemplo, se as pesquisas com RMF revelam quais áreas cerebrais estão envolvidas na atividade da linguagem, podemos tornar o dia a dia das crianças de 1 a 2 anos muito mais rico do ponto de vista de estímulos e brincadeiras apropriados para ativar as áreas cerebrais que participam da linguagem. Essas pesquisas trazem novidades, como a indicação de que permitir que a criança brinque de correr contribui para um bom desenvolvimento da linguagem. Esta é apenas uma das inúmeras contribuições que podemos enumerar sobre as contribuições das neurociências no que se refere especificamente à educação dos bebês.
Existe um entendimento de que os neurônios, uma vez estimulados, mesmo que por algum tempo não o sejam, nas ocasiões em que forem solicitados voltam a agir. O que isso tem a ver com o trabalho desenvolvido com bebês nas escolas infantis?
Estimular os neurônios dos bebês representa dar início a inúmeras atividades mentais. Os circuitos neurais por elas responsáveis são estabelecidos nessa fase e perduram para toda vida, ou seja, uma vez estimulados, formam redes neuronais que darão início a determinadas atividades mentais e subsidiarão outras. Por exemplo: estímulos que ativam a memória, como a repetição sistemática de determinada brincadeira, darão início ao trabalho da memória, bem como da atenção e da concentração, estabelecendo as bases biológicas para o desempenho dessas habilidades mentais e para o seu aperfeiçoamento.
Qual a importância de uma intervenção qualificada junto aos bebês no sentido de ampliar e ativar os neurônios que atuam em diferentes áreas do conhecimento?
A importância reside no fato de que, uma vez estimulada de forma adequada, a mente do bebê poderá ter suas potencialidades ampliadas. Quando digo de “forma adequada”, quero dizer sem submeter o bebê a um estresse. Se promovermos uma educação que contemple equilibradamente a estimulação de todas as competências mentais, repetindo a cronologia da filogênese, tanto quanto da ontogênese, certamente estaremos contribuindo para um maior número de sinapses em um espaço de tempo menor. Logo, teremos estabelecidos muito mais circuitos neuronais do que teríamos em uma circunstância natural, não planejada.
Como isso pode ser feito na prática?
Na prática, significa analisarmos o caminho percorrido pela espécie e o desenvolvimento das várias aprendizagens do bebê, elaborando programas para o favorecimento de tais habilidades. Desse modo, se passamos de peixes a répteis e assim por diante, é muito importante enriquecer as experiências do bebê na água, passando em seguida a colocá-lo de bruços para que posteriormente ele se arraste, engatinhe, se sustente e ande sem pular nenhuma etapa. Devemos ainda estimular sua discriminação auditiva com a repetição sistemática de determinados sons da natureza, iniciando pelo som da água, a seguir dos pássaros, das aves, de vozes humanas, etc. Depois devemos associar o som à imagem e então ao nome. Enfim, o segredo está na exata reprodução do que se processou na natureza ao longo de milhares de anos e que foi modificando a estrutura cerebral da nossa espécie.
Qual a importância da organização dos espaços a fim de propiciar experiências significativas na perspectiva das neurociências?
No cérebro, o mundo é construído como resultado da experiência. Cada experiência é integrada em um todo organizado e coerente com o externo que está sendo incorporado, resultando em aprendizagem permanente. Cabe lembrar que a aprendizagem pode ser “errada” ou “disfuncional”, isto é, nem sempre aprendemos o certo ou da melhor forma. Por exemplo, em um contexto no qual o mundo externo é desorganizado, o cérebro incorporará esse “estado de coisas” como critério de compreensão e organização dos conteúdos mentais.
E qual a influência dos espaços sobre a nossa mente?
A nossa mente constrói desde cedo uma “teoria” acerca de como o mundo é para o indivíduo. Essa teoria é complexa e corresponde à síntese de toda experiência vivida. Então, pela experimentação, desenvolvemos as nossas teorias sobre o mundo. Elaboramos hipóteses sobre as pessoas, os fatos, os fenômenos, enfim, sobre a vida, e testamos, modificamos, alteramos, confirmamos, confrontamos ou não essas hipóteses através de experimentos. Assim se dá o processo de aprendizagem na perspectiva das neurociências. Logo, a organização dos espaços propicia critérios de organização do pensamento. Por exemplo: quando pergunto a uma pessoa por que ela decidiu guardar determinada peça de roupa em uma dentre as várias gavetas que ela poderia ter escolhido, sua resposta revela quais os critérios de organização que regem o seu pensamento. Da mesma maneira, quando pergunto a uma criança por que guardou o brinquedo ou o lápis em determinado local, sua resposta indicará o que ela está incorporando sobre o espaço de suas vivências. Essa construção corre em processo longo e contínuo e tem influências biológicas na primeira infância, já que atua diretamente sobre o lobo pré-frontal.
O que as escolas infantis devem saber e fazer para utilizar esse conhecimento a favor da aprendizagem das crianças desde bebês?
As escolas devem ter esse conhecimento a respeito de como ocorrem os fenômenos mentais no processo de aprendizagem humana, do ponto de vista da resposta do substrato orgânico (cérebro) na interação com o meio ambiente, para elaborar seu plano pedagógico. Muito do que é importante e viável para promover um bom desenvolvimento infantil já está presente no ideário pedagógico das boas escolas, porém até agora não havia clareza acerca das verdadeiras razões para esse fazer, o que muitas vezes acabava por impedir um aprimoramento dos métodos e até mesmo levava a negligenciar alguns passos fundamentais nesse processo.

Fonte: http://www.nadiabossa.com.br/index.php/entender-o-cerebro.html

NEUROCIÊNCIA E O DÉFICIT INTELECTUAL: APORTES PARA A AÇÃO PEDAGÓGICA

NEUROCIÊNCIA E O DÉFICIT INTELECTUAL: APORTES PARA A AÇÃO PEDAGÓGICA

RESUMO
Considera-se que alunos com déficit intelectuais, dentre os quais destacamos alunos com síndrome de Down, necessitam de intervenções metodológicas que lhes oportunizem o acesso ao conhecimento na escola. Esses alunos em razão das limitações decorrentes de seu desenvolvimento intelectual e cognitivo apontam particularidades quanto à aprendizagem, as quais devem ser consideradas pelo professor. Nesse sentido, o objetivo deste trabalho classificado como uma pesquisa bibliográfica, visa à compreensão das contribuições que a Neurociência possui para a aprendizagem desse público, em relação às dinâmicas e ações pedagógicas favorecedoras do acesso, permanência e desenvolvimento escolar como fundamentado pelos preceitos da educação inclusiva. As discussões visam avançar no debate da formação e atuação docente com base no reconhecimento das bases científicas cognitivas do aprendizado, e das facetas que compõem o cérebro e suas conexões, e como esses elementos favorecem não só a elaboração de estratégias que minimizem o impacto dos prejuízos decorrentes dos quadros de déficit intelectual, mas acima de tudo posicionem os docentes como agentes centrais no processo de mediação, ação esta que deve ser contemplada com base na compreensão das particularidades e potencialidades desses alunos, a luz dos avanços teóricos, científicos e procedimentais sob os preceitos da neurociência.
Palavras-chave: Neurociência. Síndrome de Down. Educação de Pessoa com Deficiência Intelectual. Inclusão Educacional.
ABSTRACT
It is considered that students with deficits Intellectuals, among which students with Down syndrome require methodological interventions that nurture them access to knowledge in school. These students due to the limitations resulting from their intellectual and cognitive development indicate peculiarities relating to learning, which should be considered by the teacher. In this sense, the aim of this work classified as a bibliographic research aims to understand the contributions that neuroscience has to learn that public, regarding the dynamics and favoring access, attendance and developing pedagogical actions as justified by the principles of inclusive education. The discussions aim to advance the discussion of training and teaching performance based on recognition of the cognitive science foundations of learning, and the facets that make up the brain and its connections, and how these elements not only promote the development of strategies to minimize the impact of losses of tables intellectual deficit, but above all to position teachers as key agents in the mediation process, this action should be contemplated based on understanding the characteristics and potential of these students, the light of theoretical, scientific and procedural advances under the precepts of neuroscience.
Keywords: Neurosciences. Down syndrome. Education of intellectually disabled. Mainstreaming (Education).

INTRODUÇÃO
De um total de 191,5 milhões de habitantes, o Brasil tem 2,6 milhões de brasileiros com déficit intelectual1. Esse número é grande e ganha destaque, principalmente, porque estamos na era da inclusão e a política educacional tem sido fortificante à causa da inclusão escolar. O número de pessoas com essa deficiência aumentou se comparado aos dois milhões de pessoas no Censo de 2000. Precisa-se considerar que admitir alunos com deficiência na escola é um grande passo dado por uma sociedade que almeja ser mais justa, mais solidária e mais democrática e, sobretudo, inclusiva. Vale ressaltar que, apesar desse movimento de colocar todas as crianças na escola, não se pretende aqui dizer que esta se efetive, sabe-se dos percalços que a inclusão enfrenta no país.
Sendo assim, frente a uma parcela representativa em nossa sociedade, há de se esperar que muitas sejam as políticas públicas direcionadas às pessoas com necessidades especiais. Mas, dentre todas as esferas, parece ser as políticas intituladas de propostas de inclusão escolar, que vêm promovendo discussões efetivas no cenário social2,3.
As discussões quanto à proposta de inclusão permeiam o panorama escolar há décadas, mas foi a partir de 1994, que as questões proclamadas ganharam foro mundial pela UNESCO, em documento intitulado Declaração Mundial de Salamanca4. Posteriormente, na América Latina, documentos como a Declaração de Guatemala5 e a Convenção Interamericana para a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra Pessoas com Deficiência6 deram novo impulso às discussões sobre a inclusão escolar.
Já no plano nacional e, mais recentemente, as Diretrizes Nacionais para a Educação Especial na Educação Básica7, assim como a Resolução Nacional de Educação Especial na perspectiva da Inclusão8, são exemplos legais e políticos que amparam a temática da inclusão escolar, e que buscam acima de tudo reestruturar as bases organizacionais e pedagógicas das escolas para que venham a possibilitar a inclusão e permanência de seus alunos.
Os amparos legais vêm possibilitando gradativamente a inclusão de alunos com necessidades educacionais especiais no ensino regular, fato que pode ser constatado pelos dados apresentados no Censo da Educação Básica, realizado pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais no ano de 20068, finalizado e divulgado em 2008, que indica crescimento de 72,4% do número de matrículas realizadas em escolas regulares, o que, segundo análise, torna-se um favorável indicador para a inclusão escolar, mas que, no entanto, não garante que o direito de permanência e desenvolvimento desses alunos no ensino regular esteja sendo resguardado, apenas com a consideração do aumento de matrículas na rede regular.
O que se percebe, é que o embate decorrente da contradição entre o legalmente imposto e divulgado (pelas legislações e regulamentos educacionais) e o realmente possível (estruturação física, organizacional e humana das instituições escolares) delimita e amordaça as propostas de inclusão escolar, ao empregar ações cada vez mais descomprometidas, distantes das realidades sociais dos alunos, seus familiares e professores9-11.
Dentre as principais causas do distanciamento entre a intenção e a realidade educacional em nosso país12, podem ser destacados os seguintes pontos: a manutenção das formas hierarquizadas e pouco democráticas das ações políticas e interventivas, a desconsideração da história daqueles que vivem o dia-a-dia da escola13-15; a implantação das ações sem a articulação com a infraestrutura necessária; desconhecimento dos sujeitos e agentes envolvidos das reais finalidades das propostas implementadas16,17.
É na consideração desse novo contexto escolar, com a inclusão de todos os alunos, inclusive alunos com necessidades especiais, que atualmente, as escolas vêm sendo desafiadas, efetivamente, uma vez que essa população de alunos, explicitamente, caracteriza-se por possuir comprometimentos que afetam sua integridade, podendo trazer prejuízos à locomoção, à coordenação de movimentos, à sua fala, à compreensão de informações, à orientação espacial ou à percepção e ao contato com outras pessoas. Dentre esses prejuízos destacam-se as deficiências físicas, mentais, visuais e auditivas e, portanto, exigem novos posicionamentos que reconstruam o discurso enraizado frente ao oferecimento de ações educativas dispensadas a eles8.
Todavia, novos posicionamentos estão trazendo e alcançando modificações importantes sobre essa questão. Quando associada à ação educacional, a proposta inclusiva visa como foco central de atenção, a aplicação de práticas de ensino-aprendizagem que abranja todo e qualquer aluno, propondo, desenvolvimento a partir de suas próprias potencialidades, e, acima de tudo, embasada no respeito e na valorização das diferenças existentes entre as pessoas.
A política educacional inclusiva tem como propósito fundamental assumir e aceitar as diferenças humanas, modernizando e evoluindo as práticas educacionais, para que possam ser adaptadas a todas as necessidades dos alunos, ao invés, de se adaptar a criança às ações pré-concebidas a respeito do ritmo e da natureza do processo de aprendizagem. A democracia da educação só pode ser refletida em sistemas educacionais que apresentam como meta oferecer qualidade de ensino a todos os seus alunos, indistintamente, não aplicando uma vertente exclusiva para os alunos com necessidades educacionais especiais, pois, não se trata de uma educação especial para tais, mas sim para toda a sua clientela. No entanto, exige, constantemente, reformulações e novos posicionamentos, motiva a modernização do ensino e, essencialmente, o aperfeiçoamento das práticas docentes. Torna-se, portanto, uma inovação que implica atualização e reestruturação das condições educacionais das escolas brasileiras10.
Assim como crianças que não possuem deficiências têm seus direitos garantidos pela lei, também alunos com déficit intelectual devem ser incluídos na escola, de modo que recebam a mesma educação e oportunidades que os demais. A educação inclusiva proporciona aos alunos a convivência com a diversidade, resultando uma escola acolhedora das diferenças. Acima de tudo, crianças com déficit intelectual também são acolhidas e recebem respostas às suas necessidades educacionais específicas.
Sabendo-se que alunos com déficit intelectual apresentam complicações em apropriar-se de conteúdos abstratos, faz-se necessário o emprego de materiais pedagógicos concretos, estratégias metodológicas que facilitem sua aprendizagem e desenvolvam suas habilidades cognitivas.
Apesar da atual política educacional privilegiar a inclusão de alunos com necessidades educacionais especiais em turmas comuns, alunos com déficit intelectual ainda são matriculados em escolas especiais18.
A partir da publicação da Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva e das Diretrizes do Atendimento Educacional Especializado na Educação Básica, modalidade de Educação Especial, dados recentes do MEC apontam que dos 700.824 alunos matriculados na Educação Especial, 330.794 possuem déficit intelectual. Tendo como foco o aluno com Síndrome de Down que apresenta déficit intelectual.
O objetivo dessa lei é assegurar a inclusão desses alunos na escola regular e para que se cumpra essa lei são necessárias algumas mudanças na escola e nas práticas pedagógicas do professor. São necessários conhecimentos em outras áreas que ofereçam alternativas que contemplem a diversidade dos alunos. Nesse sentido, devido aos avanços e descobertas da Neurociência, permite-se a compreensão de novas aprendizagens, assim ofertando subsídios para o ensino. A Neurociência inclui ciências naturais que possuem princípios que buscam compreender a estrutura e o funcionamento cerebral, dessa forma apresenta a cientificidade para se trabalhar com diferentes cérebros. Conhecer o funcionamento cerebral desse alunado é extremamente importante para uma prática pedagógica que funcione19.
Com base nas considerações explanadas, este estudo objetiva caracterizar as contribuições da Neurociência para a qualificação da mediação pedagógica para alunos com déficit intelectual.

A NEUROCIÊNCIA: AVANÇOS CIENTÍFICOS NA COMPREENSÃO DO DESENVOLVIMENTO HUMANO
No passado, o conhecimento do funcionamento cerebral e como o homem aprendia era uma curiosidade da humanidade. No entanto, para uma melhor compreensão careciam de equipamentos e técnicas, assim a concepção que se tinha era limitada pela falta de instrumentos de pesquisa. Antes se acreditava que o cérebro não tinha funcionalidade para o homem, exemplo disto, são os egípcios que guardavam as vísceras para estudo e o cérebro era jogado fora. Com a ciência moderna, houve a necessidade de estudar o sistema nervoso e seus conhecimentos trouxeram um novo apontamento para diferentes áreas do saber como, por exemplo, medicina e educação20-22.
Alguns pesquisadores tentaram explicar como o cérebro funcionava. No século XVIII havia pouco conhecimento sobre o assunto, que era baseado em hipóteses, a partir de experiências em cadáveres de animais e seres humanos que eram dissecados e observada uma série de estruturas diferentes anatomicamente e, a partir de então, pressupunham que se anatomicamente eram diferentes, a função deveria ser também distinta. Sendo assim, não se conseguiam fazer uma relação entre estrutura e função20-22.
O primeiro estudioso que fez considerações importantes a respeito do cérebro foi o médico e neuroanatomista Franz Joseph Gall (1758-1888), pioneiro em ilustrar as circunvoluções corticais. A partir de seu estudo, houve avanços para evidenciar o córtex cerebral e suas funções específicas. Já o cientista francês Pierre Flourens (1825) lutou para demonstrar que as teorias de Gall estavam equivocadas. Para tanto, por meio de estudos com cérebros de coelhos e pombos conseguiu demonstrar que os hemisférios cerebrais eram responsáveis pelas funções cognitivas superiores, a fala que no caso dos animais era emissão de som, a visão, a orientação, movimentos, conseguiu afirmar que esses hemisférios eram os responsáveis por essas ações. Provou também que o cerebelo era responsável pela regulação e integração dos movimentos e que o tronco cerebral era importante para o controle das funções vitais, como respiração, batimento cardíaco, regulação da pressão.
Estudos posteriores em países como Alemanha, França e Inglaterra, utilizando estimulação elétrica no córtex de primatas e cães, forneceram uma prova de que havia uma localização precisa das funções.
Outro cientista Pierre Paul Broca (1860-1870) estudou pacientes afásicos pós-morte que não falavam e identificou uma zona específica destruída por neurossífilis. Após a morte de uma pessoa doente que não falava, percebeu que havia tido sífilis, e esta quando não tratada atacava o sistema nervoso, identificou esta área que chamou de Broca, área que controla a fala.
O cérebro humano é um órgão complexo, responsável por coordenar muitas informações vindas dos sentidos, sistema imunológico e também das emoções. Ele é o centro de controle do movimento, sono, fome, sede e quase todas as atividades vitais necessárias à sobrevivência. Emoções, como o amor, o ódio, o medo, a ira, a alegria e a tristeza, também são controladas por esse órgão, que ainda recebe e interpreta os inúmeros sinais enviados pelo organismo e pelo ambiente. Alguns estudiosos também o chamam de encéfalo sendo suas funções ligadas à capacidade cognitiva e afetiva do ser humano. Possuem ventrículos que são diferentes câmaras cheias de líquidos. Este é composto por dois hemisférios justapostos e separados por um sulco e cerebelo constituído por dois hemisférios direito e esquerdo. Tronco encefálico é uma estrutura contínua com a medula espinhal que se esconde por trás do cerebelo e por dentro do cérebro23.
O córtex cerebral é a superfície do cérebro enrugada cheia de sulcos, região que estão representadas as funções neurais e psíquicas mais complexas. Geralmente dividido em grandes regiões denominadas lobos, seus nomes fazem referência aos ossos que os cobrem: o lombo frontal, parietal, occipital, temporal19.
Além desses lobos destaca-se também o lobo insular, região mais interna do cérebro. Qualquer lesão no cérebro pode afetar os lobos e causar sérias lesões e comprometimento gravíssimo das atividades.
Essas importantes regiões possuem funções que nos ajudam compreender como são os processos mentais que colaboram na aquisição, por exemplo, da aprendizagem, tão importante para ações pedagógicas em sala de aula com alunos com deficiência.
Esse órgão - que possui inúmeras funções - também tem cerca de cem bilhões de neurônios como estruturas básicas para seu funcionamento e suas atividades cerebrais se dá pela transmissão de sinais elétricos. Esses neurônios se adaptam e se modificam à medida que interagem com o meio ambiente, essa interação é realizada por meio dos cinco sentidos, portanto, são mutáveis, ou seja, possuem plasticidade, podendo modificar sua função24.
O sistema nervoso central reúne as estruturas neurais situadas dentro do crânio e da coluna vertebral, sendo dividido em encéfalo e medula espinhal. O encéfalo localiza-se no crânio e a medula espinhal é a parte que continua a partir do encéfalo no interior do canal da coluna vertebral. Ela é cilíndrica ou tubular, nela existe um canal cheio de líquido, apresenta funções motoras e sensitivas relacionadas ao controle do funcionamento do corpo. O encéfalo possui forma irregular com dobraduras e saliências com subdivisões.

CONTRIBUIÇÕES DA NEUROCIÊNCIA PARA O PROCESSO EDUCACIONAL INCLUSIVO DE ALUNOS COM DÉFICITS INTELECTUAIS
Neurociências é o estudo científico do sistema nervoso, cujo objetivo é investigar o seu funcionamento, sua estrutura, seu desenvolvimento e suas alterações, agregando suas diversas funções. Acrescentam-se ainda na sua definição, as ciências naturais que estudam princípios que descrevem a estrutura e atividades neurais, buscando a compreensão dos fenômenos observados.
A terminologia está no plural, pois, são muitas neurociências, possuindo várias abordagens e existem muitos modos de classificá-las dependendo do enfoque. Um jeito distinto de se conceber a diversidade de metodologias para se estudar o cérebro humano é - como proposto por Lent - relacionar, em princípio os distintos níveis anatômicos - funcionais que a biologia utiliza para o estudo dos seres vivos23. Pode ser: Neurociência Molecular (Neuroquímica ou Neurobiologia Molecular), que estuda as moléculas funcionais do sistema nervoso; Neurociência Celular (Neurocitologia ou Neurobiologia) cujo objeto de estudo são as células do sistema nervoso, sua estrutura e função; Neurociência Sistêmica estuda as células nervosas das diferentes regiões do sistema nervoso cuja função está relacionada à visão, à audição, etc.; Neurociência comportamental estuda as estruturas neurais do comportamento humano e outros fenômenos e a Neurociência cognitiva que lida com algumas capacidades humanas, como, por exemplo, a linguagem, e memória humanas20.
Assim sendo, são muitos os profissionais que estudam o cérebro humano, mas são os neurocientistas que realizam pesquisa em Neurociência. Especialistas como médicos, psicólogos, enfermeiros e, também, educadores e pedagogos têm se interessado quanto às contribuições do sistema nervoso para os processos de aprendizagem23.
Para a educação, a Neurociência contribui no sentido que, para essa abordagem científica, cada indivíduo é único, com um significado e identidade singular. As neurociências colaboram no entendimento do cérebro humano para saber como ele funciona e apontam mudanças em como ensiná-los25.
Além do mais, as descobertas sobre a plasticidade cerebral e a compreensão das funções mentais exercem influência sobre as práticas educacionais, as ações pedagógicas em sala de aula e direcionam ao professor novas formas de ensino.
Estudos recentes vêm sendo realizados nas áreas de Neurociências, a fim de demonstrar como o cérebro aprende, e os resultados quando aplicados no meio educacional são considerados satisfatórios. E uma das contribuições para a educação é que se traz para a sala de aula, juntamente com seus educadores e alunos, as novas descobertas dessa ciência, para serem aplicadas na sala de aula visando à aprendizagem e a maneira de se ensinar.
Para Pereira26, a Neurociência tem como objetivo dar os devidos esclarecimentos sobre as estruturas neuronais que apoiam as ações perspectivas ou motores, tão necessárias para a aprendizagem.
Especificamente para a educação, a Neurociência colabora para o processo de aprendizagem, pois essa ciência retrata o cérebro como o principal instrumento para a aprendizagem. Apresentando uma propriedade denominada plasticidade cerebral, esse órgão possui uma capacidade de reorganização cerebral conforme o uso, sendo sua notável característica, e conforme autores como Consenza & Guerra19, o cérebro humano em funcionamento modifica a estrutura cerebral do aluno.
A partir da Neurociência e do conhecimento neurocientífico gerado por essa ciência pode se abrir um diálogo com a educação no sentido de cooperação e parceria. Entretanto, deve-se considerar que seus conhecimentos não são uma nova proposta de educação, assim como os autores Consenza & Guerra19 esclarecem:
"(...) elas não propõem uma nova pedagogia nem prometem soluções definitivas para as dificuldades da aprendizagem. Podem, contudo, colaborar para fundamentar práticas pedagógicas que já se realizam com sucesso e sugerir ideias para intervenções, demonstrando que as estratégias pedagógicas que respeitam a forma como o cérebro funciona tendem a ser mais eficientes. Os avanços das neurociências possibilitam uma abordagem mais científica do processo ensino-aprendizagem, fundamentada na compreensão dos processos cognitivos envolvidos."
Quando uma criança na fase escolar não consegue aprender, educadores e professores fazem uma investigação para constatar porque o desempenho do aluno não corresponde ao esperado. As explicações a este tipo de situação são bem variadas: problemas familiares, condições ruins da família, deficiência, falta de interesse, preguiça, dentre outros. A escola sempre aponta direções externas a ela, a causa sempre está no outro, "dificilmente está no ensino, mas sim na aprendizagem"27.
Diante desse quadro, tanto psicólogos quanto neurologistas podem contribuir, pois quem faz um diagnóstico é o médico e não o professor, no caso da criança possuir uma patologia, distúrbios, deficiência ou transtorno, mas em se tratando de aprendizagem escolar o profissional que intervem no processo de aprendizagem é o educador que, com suas práticas pedagógicas, pode trazer diferentes possibilidades de aprendizagem a seus alunos28.
A contribuição desses profissionais é de suma importância, mas a abordagem de ensino e aprendizagem a tarefa é do educador. Nesse sentido, o conhecimento sobre a Neurociência pode contribuir, a fim de que saiba sobre o cérebro de seus alunos, como esse órgão processa os saberes, como aprende, e também pode sugerir as intervenções que o professor deve fazer com suas crianças, pois todos podem aprender. As ações pedagógicas em sala de aula podem ficar mais eficientes quando este conhece o funcionamento cerebral. Embora, não seja suficiente ter esse conhecimento, ele permitirá que o docente compreenda melhor como seus educandos aprendem e se desenvolvem19.
Se todos os alunos podem aprender, isto precisa estar explanado para os professores em suas práticas pedagógicas. Entretanto, deve-se considerar que a aprendizagem de cada um é diferente, acontece em tempos e etapas distintas e se desencadeia a partir de estímulos diferenciados. Todas elas estão demarcadas em suas atividades neurocerebrais. Há um trajeto químico no cérebro que mantém e que operacionaliza cada ação executada pelos alunos28.
A Neurociência, que trata da cientificidade do cérebro, aponta a plasticidade cerebral como uma habilidade que este possui de se reorganizar a partir do aprendizado dos aprendizes, de acordo com meio em que está inserido28.
Lent23, ao caracterizar essa habilidade cerebral, afirma que o ambiente contribui para modificar a estrutura do sistema nervoso, ou seja, o cérebro responde às atividades promovidas pela ação do ambiente que o atinge. A partir dessa exposição de Lent observamos que essa capacidade do cérebro de construir novas conexões neurais e modificar suas estruturas é que possibilita nosso aprendizado durante toda a nossa vida.
Conforme Relvas20, o cérebro humano tem a capacidade de adaptação, ou seja, se remodela de acordo com as experiências vivenciadas pelo sujeito, ou seja, o cérebro é maleável, que se modifica sob o efeito de experiências, ações e comportamentos dos indivíduos. Essa plasticidade é decorrente das atividades dos neurônios do cérebro, pois a cada experiência e aprendizado, novas conexões neurais são acrescentadas.

A NEUROCIÊNCIA E A MEDIAÇÃO PEDAGÓGICA DE PROFESSORES CAPACITADOS E ESPECIALIZADOS
A Neurociência sendo uma aliada da educação possui fundamentos importantes para as práticas pedagógicas do professor e pode apontar intervenções para o docente em sala de aula. Nesse sentido, o educador deve buscar uma interlocução com a Neurociência em razão da sua contribuição para a atividade de ensino29.
Diante disso, o professor deve conhecer seus alunos, suas dificuldades e particularidades, a fim de promover o desenvolvimento da aprendizagem nas crianças. Não é tarefa fácil para os professores, a inclusão de crianças com deficiência na escola regular requer um trabalho organizado e sistemático, principalmente porque essa escola precisa ter qualidade de ensino a todos. E para que haja qualidade na educação deve-se atentar para os estilos de aprendizagem de cada aluno, ou seja, cada aluno possui caminhos que facilitam sua aprendizagem. São situações que envolvem o ambiente, emoções, aspectos sociológicos, físicos e psicológicos, com isto adota uma educação contextualizada que conceitua o aluno como sendo um ser ativo, construtor de seu próprio conhecimento.
Esses estilos de aprendizagem, combinados com fatores que podem ser favoráveis ou não, devem ser considerados, com isto a individualidade dos alunos é respeitada e, consequentemente, são impulsionados ao aprendizado30.
Alunos com déficit intelectuais, portanto, têm dificuldades de aprendizagem majoritariamente generalizadas que acometem a linguagem, a motricidade e a integração social. Por isso, não se deve esperar a mesma resposta entre uma criança com déficit intelectual de uma criança que não o possui, pois aquela possui lesões cerebrais e desajustes no sistema nervoso29.
Autores como Relvas20 apontam que a educação inclusiva necessita de intervenções pedagógicas renovadas com uma nova força em apoio à escolarização. A maior contribuição que a Neurociência oferece a educação são seus estudos a respeito do funcionamento cerebral que é modificado pela ação pedagógica.
A criança com déficit intelectual apresenta dificuldades e debilidades nas funções mentais: memória, percepção, raciocínio, e a falta dessas funções dificulta a aprendizagem escolar. Mesmo assim, diante desse quadro de alterações, é importante ressaltar que ela consegue realizar aprendizagens e conseguir formação profissional29.
Esses alunos em suas tarefas em sala de aula possuem dificuldades de concentração, não possuem autonomia em trabalhos coletivos, pois dependem do outro colega para responder, possuem raciocínio oscilante29.
Para se efetivar a inclusão, é necessário que as práticas educativas sejam diferenciadas para poder alcançar alunos com déficit intelectual. Lembrando que a compreensão do conteúdo curricular para o aluno com déficit intelectual é limitada, mas mesmo nessas condições existe a possibilidade de um desenvolvimento de suas potencialidades e devido à plasticidade cerebral pode-se pensar em estratégias diferentes de ensino.
Os alunos com deficiência, com desenvolvimento cognitivo mais lento, são mais vagarosos para aprender e são necessárias atividades de estimulação precoce, ou seja, criar situações que facilitem o desenvolvimento da criança.
Em sala de aula, o professor deve proporcionar um ambiente acolhedor de aprendizagens, e manter as crianças sempre ocupadas, mas sem cansá-las, deve dosar as atividades para que haja interesse de todos e participação principalmente da criança com déficit intelectual. E também deve usar a ludicidade de maneira agradável. Procurar dividir a atividade em etapas, ensinando cada criança até que sejam capazes de realizar a tarefa sozinha.
O indivíduo com deficiência intelectual tem condições de ser alfabetizado, por isso deve seguir um currículo adaptado às suas limitações, pois possui um ritmo mais lento que os demais, seu desenvolvimento deve ser respeitado. O ensino especializado para alunos com déficit intelectual é realizado junto ao atendimento educacional especializado (AEE), ensino que ocorre simultaneamente à sala de aula comum. Nesse ambiente, ocorre uma aprendizagem diferente dos conteúdos curriculares do ensino regular, pois a deficiência é observada e considerada a fim de que haja aprendizagem para o aluno, na perspectiva de conhecimentos importantes para a vida do aluno, para que tenha mais autonomia no seu dia-a-dia. Nesse processo, as intervenções do professor são muito importantes. Ele, juntamente com o professor da sala regular, devem interagir para que os conteúdos que ambos ensinam estejam interligados30.
A efetivação da inclusão recai exclusivamente sobre o professor, pois ele é que vai executar ou não as ações pedagógicas em sala de aula para incluir esses alunos. Porém, esses profissionais dizem-se sentir sozinhos ao especificar suas dificuldades com seus alunos30. No processo inclusivo é importante que todos da instituição escolar se envolvam: docentes, gestores e demais profissionais educacionais. Nesse sentido, a responsabilidade de efetivar a inclusão não fica exclusiva ao professor, ela é direcionada a todos na instituição escolar, isto inclui interferência do professor capacitado e também do professor especializado.
Para que haja intervenções pedagógicas de qualidade, o trabalho inclusivo deve ser em conjunto entre professores da Educação especial e Educação inclusiva juntamente com os professores do ensino regular. O educador especialista precisa colaborar com o professor capacitado, a fim de que juntos planejem ações educativas visando à aprendizagem de seus alunos30,31.
Na inclusão educacional, torna-se necessário o envolvimento de todos os membros da equipe escolar no planejamento de ações e programas voltados à temática. Docentes, diretores e funcionários apresentam papéis específicos, mas precisam agir coletivamente para que a inclusão escolar seja efetivada32.
Pensar as possibilidades de inclusão escolar das pessoas com Síndrome de Down de maneira efetiva, é oferecer oportunidades de aprendizagens de modo que o aluno ou a aluna seja participante ativo nestes ambientes que oportunizam o ensino.
Para que isto se cumpra, são necessários investimentos da parte de educadores, a fim de que a criança com Down "possa amadurecer as funções neurológicas, executar atividades diárias e, consequentemente, aprender e se desenvolver". Nesse sentido, é primordial a conscientização desses docentes sobre as potencialidades e capacidades desse aluno, pois, a clareza a respeito da síndrome fará com que tenha uma postura singular em suas ações metodológicas em sala. O grau de comprometimento na base cognitiva da criança não vai ser diminuído, o que pode ocorrer é o cérebro desse aluno, devido a sua plasticidade, responder aos estímulos externos feitos no indivíduo33.
A convivência escolar permite à criança a aquisição de conhecimentos exigidos na sociedade, e que é necessário à formação de qualquer pessoa com ou sem deficiência. Nesse ambiente, o ensino deve ser organizado e sistemático por parte do professor, de forma gradual, pois essas crianças não conseguem guardar muitas informações devido a limitações de memória e atenção. A aprendizagem deve ser facilitada e, por meio da ludicidade, deve-se permitir aos alunos momentos prazerosos de atividades. E também o professor deve lembrar que esses alunos, por não possuírem memória de curto prazo, precisam visualizar o que está sendo ensinado, com isto ele deve abusar de recursos visuais, a fim de que haja compreensão por parte do aluno29.

CONSIDERAÇÕES FINAIS
Discutir a temática do processo de desenvolvimento de alunos com déficit intelectuais é defender uma ação que garanta o acesso, a permanência e o desenvolvimento escolar efetivo.
Para tanto, a compreensão que o processo de inclusão demarca a necessidade de metodologias e ações diferenciadas que partam da consideração das particularidades dos alunos faz-se necessária à articulação com diferentes áreas do conhecimento que possibilitem o reconhecimento de novos embasamentos teóricos e científicos acerca do desenvolvimento humano e do processo de ensino-aprendizagem.
Dentre os avanços teóricos e científicos, ainda que escassos no contexto do nosso país, uma das áreas de maior impacto nas discussões sobre o desenvolvimento humano e as facetas do desenvolvimento cognitivo é a Neurociência, que não apenas oferta aportes recentes para a compreensão do desenvolvimento, como possibilita a organização de estratégias pedagógicas diferenciadas em específicos de alunos que apresentem déficit intelectual.
Como discutido, o déficit intelectual caracteriza-se por um funcionamento do intelecto inferior à média das pessoas e está presente em quase 100% dos casos de síndrome de Down. No cotidiano, isso significa que esses indivíduos têm dificuldades para aprender, entender e realizar atividades que comumente são feitas automaticamente.
Dessa forma, de acordo com os pressupostos da Neurociência, o desenvolvimento e aprendizagem são possíveis, com práticas pedagógicas e estimulação, por meio de atividades como cartazes, soroban e softwares a criança conseguirá focar a atenção em algo que seja mais concreto. Visto que alunos e alunas com déficit intelectual possuem limitações nas áreas da memória, atenção e concentração.
Entendemos que não podemos definir se uma metodologia pedagógica é mais eficiente que a outra, o que evidenciamos é que, para que docente seja capacitado ou especializado, o desafio é observar seus alunos e lidar com eles de acordo com suas necessidades e particularidades com ações pedagógicas que o atendam, dessa forma será mais eficiente. O professor e demais profissionais da instituição, diante da perspectiva inclusiva, devem planejar e rever suas estratégias de ensino, a fim de reformularem e adequarem os interesses de seus alunos.
Como considerações finais defendemos que é necessário o avanço no debate da formação e atuação docente com base no reconhecimento das bases científicas cognitivas do aprendizado, e das facetas que compõem o cérebro e suas conexões, e como esses elementos favorecem não só a elaboração de estratégias que minimizem o impacto dos prejuízos decorrentes dos quadros de déficit intelectual, mas acima de tudo posicionem os docentes como agentes centrais no processo de mediação, ação esta que deve ser contemplada com base na compreensão as particularidades e potencialidades desses alunos, à luz dos avanços teóricos, científicos e procedimentais sob os preceitos da Neurociência.

REFERÊNCIAS
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1. Pedagoga formada pela Universidade Federal de Alfenas, Alfenas, MG, Brasil
2. Profa. Dra. do nstituto de Ciências Humanas e Letras (ICHL), Universidade Federal de Alfenas, Alfenas, MG, Brasil

Correspondência
Claudia Gomes.
Rua Tiradentes, 830 - Centro
Alfenas, MG, Brasil - CEP 37130-000
E-mail: cg.unifal@gmail.com
Artigo recebido12/03/2015 
Aceito20/04/2015 

Trabalho realizado na Universidade Federal de Alfenas, Alfenas, MG, Brasil.

fonte: http://www.revistapsicopedagogia.com.br/detalhes/60/neurociencia-e-o-deficit-intelectual--aportes-para-a-acao-pedagogica

DISLEXIA NA ESCOLA: IDENTIFICAÇÃO E POSSIBILIDADES DE INTERVENÇÃO

Artigo Especial - Ano 2016 - Volume 33 - Edição 100

DISLEXIA NA ESCOLA: IDENTIFICAÇÃO E POSSIBILIDADES DE INTERVENÇÃO

RESUMO
Dislexia é um transtorno específico de aprendizagem que acomete em torno de 3% a 5% dos escolares. Dificuldade na aquisição e fluência da leitura e escrita, desenvolvimento cognitivo dentro dos padrões de normalidade, déficit no processamento fonológico e baixo desempenho em algumas habilidades cognitivas são as principais características encontradas nesse transtorno. A identificação precoce e o adequado processo intervertivo são essenciais para minimizar os efeitos negativos da dislexia. Para tanto, há necessidade de conhecimento sobre a diversidade encontrada no transtorno, bem como capacidade de adequar a intervenção à dificuldade da criança. Nesse sentido, o objetivo principal deste artigo é abordar os principais conceitos relativos à dislexia, sua identificação e algumas possibilidades de intervenção.
Palavras-chave: Dislexia. Transtornos de aprendizagem. Transtornos da linguagem.
ABSTRACT
Dyslexia refers to a learning disability that affects around 3-5% of students. Difficulties with accurate and fluent word recognition, poor spelling and decoding abilities, which typically result from the phonological component of language, are the main characteristics of dyslexia. These characteristics are often unexpected in relation to other cognitive abilities. Early identification of students at risk for reading difficulties is critical in developing the appropriate instructional plan. The goal of this article is to provide information about dyslexia that is intended to be helpful to educators.
Keywords: Dyslexia. Learning disorders. Language disorders.

INTRODUÇÃO
Dentre todos os transtornos de aprendizagem que atingem crianças e adolescentes, a dislexia é, sem dúvida, o mais pesquisado e difundido. Nos últimos anos, milhares de pesquisas foram desenvolvidas a esse respeito. Como resultado, há hoje dados robustos sobre a natureza, etiologia, diagnóstico, formas de tratamento e evolução desse distúrbio que afeta a vida de tantos indivíduos em todo o mundo.
Apesar disso, a sensação que se tem é que ainda há dificuldade em se lidar adequadamente com esse transtorno, principalmente no contexto escolar. Como consequência, não é incomum termos de um lado o professor, que se sente frustrado e impotente por não saber lidar adequadamente com essa problemática, e de outro, o aluno, que vivência o constante sentimento de fracasso no curso do seu desenvolvimento. Várias são as explicações para tal realidade, porém chama-se a atenção para o desconhecimento sobre o transtorno e a ideia errônea de que a intervenção na dislexia é objeto apenas daqueles que atuam na clínica.
Diante disso, há necessidade de que o profissional da educação adote uma nova postura em relação ao processo ensino-aprendizagem das crianças com dificuldade na leitura e escrita, secundárias (ou não) à dislexia. Tal postura exige capacidade de identificar precocemente aquelas que não estão evoluindo conforme o esperado, avaliar fatores de risco para o transtorno e elaborar e executar trabalho interventivo voltado para as dificuldades encontradas.
Isso pressupõe, entre outras coisas, conhecimento sobre os aspectos que envolvem a aprendizagem da leitura/escrita e seus transtornos; domínio de diferentes métodos e/ou abordagens de ensino e capacidade de sistematização do processo interventivo. Com isso, o professor terá meios para analisar a evolução do seu aluno e poderá, quando necessário, encaminhar com mais segurança a criança com suspeita de dislexia à investigação interdisciplinar para diagnóstico diferencial.
Nessa perspectiva, o professor deixa de ser mero expectador e passa a ser sujeito atuante, não só no processo de identificação e diagnóstico da dislexia, mas também na sua intervenção, que será necessária durante todo o processo de escolarização formal do indivíduo.
Diante do exposto, neste artigo tem-se como objetivo abordar os principais conceitos relativos à dislexia, sua identificação e algumas possibilidades de intervenção.

DISLEXIA: DEFINIÇÃO E CONCEITOS GERAIS
A dislexia é um transtorno específico de aprendizagem, de origem neurológica. Acomete pessoas de todas as origens e nível intelectual e caracteriza-se por dificuldade na precisão (e/ou fluência) no reconhecimento de palavras e baixa capacidade de decodificação e de soletração. Essas dificuldades são resultado de déficit no processamento fonológico, que normalmente está abaixo do esperado em relação a outras habilidades cognitivas. Problemas na compreensão e reduzida experiência de leitura normalmente são as consequências secundárias desse transtorno1.
As causas exatas da dislexia ainda não estão completamente claras, porém estudos com neuroimagem demonstram que há diferenças no desenvolvimento e funcionamento cerebral2. Também há forte indicativo de componente genético3, uma vez que os estudos clínicos indicam que mais de 50% das crianças com dislexia tem pais e irmãos com o mesmo transtorno4,5. Assim sendo, a presença de pai ou irmão com dislexia aumenta a probabilidade de ocorrência do transtorno1.
Quanto à prevalência, essa é variada, já que os índices são dependentes da definição e dos critérios diagnósticos adotados. Entretanto, calcula-se que entre 3% a 10% dos escolares têm o transtorno6.
No Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais - DSM-57, a dislexia está inserida dentro de uma categoria mais ampla, denominada de "Transtornos do Neurodesenvolvimento", sendo referida como "Transtorno Específico de Aprendizagem". Segundo o manual, o seu diagnóstico requer a identificação de pelo menos um dos seguintes sintomas:
1. Leitura de palavras é feita de forma imprecisa ou lenta, demandando muito esforço. A criança pode, por exemplo, ler palavras isoladas em voz alta, de forma incorreta (ou lenta e hesitante); frequentemente, tenta adivinhar as palavras e tem dificuldade para soletrá-las;
2. Dificuldade para compreender o sentido do que é lido. Pode realizar leitura com precisão, porém não compreende a sequência, as relações, as inferências ou os sentidos mais profundos do que é lido;
3. Dificuldade na ortografia, sendo identificado, por exemplo, adição, omissão ou substituição de vogais e/ou consoantes;
4. Dificuldade com a expressão escrita, podendo ser identificados múltiplos erros de gramática ou pontuação nas frases; emprego ou organização inadequada de parágrafos; expressão escrita das ideias sem clareza.
Entretanto, a simples presença de um ou mais sintomas não significa que a criança tenha dislexia, uma vez que estes podem ser decorrentes de fatores variados, o que inclui: deficiência (intelectual e sensorial, por exemplo), síndromes neurológicas diversas, transtornos psiquiátricos, problemas emocionais e fatores de ordem socioambiental (pedagógico, por exemplo).
Nesse sentido, o manual (DSM-5)7 considera que, além dos sintomas mencionados, se deve levar em consideração os seguintes critérios:
  • Persistência da dificuldade por pelo menos 6 meses (apesar de intervenção dirigida);
  • Habilidades acadêmicas substancial e qualitativamente abaixo do esperado para a idade cronológica (confirmado por testes individuais e avaliação clínica abrangente);
  • As dificuldades iniciam-se durante os anos escolares, mas podem não se manifestar completamente até que as exigências acadêmicas excedam a capacidade limitada do indivíduo, como, por exemplo: baixo desempenho em testes cronometrados; leitura ou escrita de textos complexos ou mais longos e com prazo curto; alta sobrecarga de exigências acadêmicas;
  • As dificuldades não são explicadas por deficiências, transtornos neurológicos, adversidade psicossocial, instrução acadêmica inadequada ou falta de proficiência na língua de instrução acadêmica.
  • Caracteristicamente, os fatores de risco para dislexia são observados ainda na fase precoce, quando se observa dificuldade na consciência fonológica, na fala (algumas vezes) e, posteriormente, no reconhecimento das letras8,9. Mais tarde, a dificuldade na decodificação de palavras pode comprometer outros aspectos relacionados à leitura (soletração e fluência), expressão escrita e, em parte dos casos, à matemática.
    Em relação a esta última habilidade, estudos demonstram que pode haver associação entre déficit do processamento e da consciência fonológica com defasagem na aritmética10. O mau rendimento em matemática parece não ser tão evidente na fase inicial da alfabetização, porém, com o tempo esse tende a se agravar11. Assim, adolescentes com dislexia podem apresentar dificuldades em conceitos matemáticos básicos que não seriam esperados para sua idade e etapa de ensino.
    Destaca-se que as alterações acadêmicas são os sintomas mais evidentes e, portanto, facilmente identificadas por pais e professores. Porém, há que se atentar também para outros aspectos que costumam afetar crianças com dislexia, dentre os quais merecem ser mencionados: comprometimento da linguagem12, sintomas de desatenção13, dificuldade de coordenação motora, prejuízo das funções executivas14 e comorbidades psiquiátricas (como depressão, ansiedade e transtornos disrruptivos)14,15.
    Depreende-se, então, que embora o problema de base da dislexia seja a leitura e a escrita, não se pode perder de vista que habilidades cognitivas, acadêmicas e problemas de ordem psicossocial podem estar comprometidos e, portanto, é importante que sejam valorizadas e avaliadas, já que podem interferir no desempenho global da criança.
    Na fase adulta, a evolução da dislexia é variada e os estudos, quando comparados à infância e adolescência, são escassos. Sabe-se, porém, que há indivíduos que conseguem concluir o ensino superior, quando recebem intervenção adequada. Porém, outros abandonam a escola muito cedo, muitas vezes sem sequer receber o diagnóstico. Infelizmente, no nosso meio, esse segundo grupo é mais comum. Isso porque, na prática clínica, o que se observa é que a dificuldade com a leitura e escrita normalmente é identificada ainda na fase precoce e, a partir desta, se inicia um longo percurso de avaliações isoladas, com especialistas variados.
    Como resultado, não é incomum o adolescente chegar ao final do ensino fundamental com hipóteses diagnósticas diversas, abrangendo desde transtornos psiquiátricos (tais como TDAH) até problemas intrínsecos à criança e sua família (como, por exemplo, desmotivação, problemas emocionais, falta de empenho, prejuízos emocionais e problemas de ordem familiar). O agravante, neste caso, é que a intervenção em fase tardia é muito mais difícil de ser realizada, não só porque envolve fatores relacionados ao funcionamento e maturidade cerebral, mas também porque outras comorbidades psicológicas e/ou psiquiátricas (externalizantes ou internalizantes) podem estar associadas ao transtorno.
    Diante disso, tem-se a dimensão da importância do papel da escola, principalmente do professor, na prevenção e condução adequada do processo de ensino-aprendizagem de crianças que tenham dificuldade com a leitura/escrita, secundária (ou não) à dislexia. Tal aspecto será abordado nos tópicos seguintes.

    INTERVENÇÃO NA DISLEXIA
    Ensino infantil e séries iniciais
    Conforme já mencionado anteriormente, pesquisas demonstram que o déficit no processamento fonológico é a principal causa da dislexia.
    No ensino infantil, tal dificuldade pode se manifestar principalmente por falta de interesse pelas rimas; palavras mal pronunciadas; persistência da "linguagem de bebê"; dificuldade em aprender (e lembrar o nome das letras) e dificuldade em saber o nome das letras do próprio nome16.
    Nas séries iniciais do ensino fundamental, as seguintes características normalmente são identificadas: dificuldade em entender que as palavras são "divididas em partes"; incapacidade de associar letras a sons; erros de leitura (sem conexão entre fonemas/grafemas - por exemplo, ler panela, em vez boneca), incapacidade de ler palavras mesmo simples; reclamações e ou recusa em situações em que tenha que ler.
    Em se tratando de intervenção, há consenso de que o ensino infantil e as séries iniciais representam uma "janela de oportunidades" para se prevenir problemas com a leitura (assim como outros problemas de aprendizagem). Além disso, na ausência de intervenção se observa aumento de discrepância de desempenho, quando comparado aos seus pares, ao longo das séries posteriores.
    Sendo assim, é importante que se identifique no ensino infantil os sinais sugestivos de alterações que possam prejudicar a aquisição da leitura e escrita e, nesses casos, se implemente intervenção adequada às alterações encontradas. Em se tratando dos aspectos linguísticos, várias possibilidades e métodos são encontrados na literatura, aqui se faz referência à proposta de Adams et al.17, que tem como objetivo estimular o desenvolvimento fonológico das crianças menores.
    Estimulação da consciência fonológica
  • Estimular a habilidade das crianças prestarem atenção aos sons de forma seletiva, ou seja, discriminação e denominação de sons diversos (reais ou gravados), identificação e sequências de sons e sons faltantes em uma sequência anterior; localização de sons diversos; ouvir um determinado som e associá-lo à sua fonte; identificação de frases sem sentido; percepção auditiva, atenção e concentração; capacidade de compreender e de seguir ordens sequenciais;
  • Usar rimas para introduzir os sons das palavras. Pode-se usar como estratégias: orientação verbal, músicas, parlendas, poesias infantis com rimas, figuras diversas, dentre outros. Dentre as possibilidades destacam-se: trabalhar a atenção e aprimorar a consciência para os sons da fala; enfatizar a rima por meio do movimento (físico-corporal); introduzir o conceito de que qualquer palavra pode ser rimada; criação de rimas;
  • Desenvolver a consciência de que a fala é constituída por sequência de palavras, ou seja, que frases são cadeias linguísticas pelas quais transmitimos nosso pensamento. Ainda, que estas são compostas de sequência de palavras com significados e que a ordem das palavras é que dá significado (ou não) à frase;
  • Desenvolver a capacidade de analisar as palavras em silabas, separando-as e sintetizando-as. Para tanto, pode-se utilizar explicação verbal, jogos com movimentos físicos (palmas, por exemplo), jogos com figuras, objetos reais, dentre outros. A ideia é fazer com que a criança perceba que as palavras são formadas por sequência menores da fala (as silabas) e que as sílabas correspondem às pulsações do som da voz, bem como aos ciclos de abertura e fechamento das mandíbulas;
  • Desenvolver a consciência de que as palavras contém fonemas. Explicação verbal, espelhos, observação dos colegas ao falar, cartões com figuras, dentre outros, podem ser utilizados como estratégias. Nesse sentido, se poderá: explorar, comparar e contrastar o ponto e o modo de articulação; isolar, acrescentar e excluir fonemas (iniciais, mediais, finais); comparar palavras com mesmo fonema inicial; compreensão de que palavras contém fonemas; compreender que fonemas têm identidades separadas e essas podem ser reconhecidas e distinguidas e, por fim, auxiliar a criança a se atentar para a pronúncia dos fonemas;
  • Introduzir a relação entre grafema/fonema, utilizando-se de explicação verbal, espelhos, observação dos colegas ao falar, cartões com figuras, dentre outros. Aos poucos, a criança deve compreender o princípio do sistema alfabético. É aconselhável que isso seja feito gradativamente, introduzindo, por exemplo, dois fonemas, encontros consonantais e análise e síntese dos fonemas;
  • Introdução gradativa das letras e da escrita. Aqui o professor inicia a associação entre as letras com os fonemas (iniciais e finais) da palavras e a escrita dos mesmos.
  • É importante ressaltar que o trabalho com a consciência fonológica tem a sua eficácia comprovada, quando se trata de melhorar a leitura e a escrita de crianças com idade entre 5 a 8 anos. Entretanto, em crianças com idade mais avançada o mesmo pode não ocorrer. Isso sugere que a consciência fonológica é uma habilidade importante, mas não é suficiente para melhorar a leitura, especialmente em crianças maiores18-23.
    Dificuldade na compreensão da leitura
    Muitas crianças com dislexia conseguem adquirir habilidade suficiente para codificar e decodificar palavras e textos. Entretanto, não é incomum que apresentem dificuldade na compreensão da leitura, problema esse que normalmente é atribuído à lentidão e a pouca precisão na leitura de palavras.
    Na prática clinica, o que se observa é que o aumento da demanda da memória de trabalho (com textos mais longos, por exemplo) é um dos principais fatores que levam o sujeito a ter dificuldade de compreensão.
    Por outro lado, outros trabalhos apontam para o fato de que esse tipo de dificuldade pode ocorrer em indivíduos que decodificam adequadamente, o que remete à ideia de que se pode estar lidando com uma desordem distinta da dislexia. Caracteristicamente, esses indivíduos conseguem decodificar e soletrar palavras com precisão, mas tem problemas no entendimento daquilo que leram9.
    Estudo desenvolvido com 50 escolas inglesas, envolvendo 1.553 crianças e adolescentes do ensino primário e secundário, demonstrou que 5,3% das crianças do ensino primário e 5% do ensino secundário foram identificados como sendo "maus compreendedores". Tal dado, segundo os autores, sugerem que o prejuízo na compreensão da leitura pode ser um distúrbio distinto comum, que permanece escondido nas salas de aula6.
    Caracteristicamente, esse tipo de aluno costuma apresentar, desde a fase precoce, comprometimento da linguagem oral e boa habilidade fonológica, o que os capacita a decodificar adequadamente. Entretanto, nos primeiros estágios da aprendizagem da leitura, tais crianças já demonstram dificuldades básicas com a linguagem, tais como vocabulário, gramática, sintaxe, problemas com inferência e uso da linguagem figurativa, assim como com o monitoramento da compreensão e conhecimento da estrutura do texto24,25.
    É importante então que o professor, na sua prática, se atente para os seguintes aspectos: crianças com dificuldade nos aspectos fonológicos são consideradas de risco para desenvolverem dificuldade na decodificação, enquanto aquelas que têm prejuízo na linguagem têm risco para desenvolverem dificuldade de compreensão da leitura. As crianças clinicamente diagnosticadas com distúrbio específico de linguagem geralmente têm dificuldade em ambos os processos26.
    Outro ponto a ser ressaltado diz respeito às características normalmente encontradas nas crianças com dislexia, ou seja, essas podem apresentar comprometimento na leitura, na escrita e na ortografia.
    Em relação à leitura, destaca-se: leitura lenta e silabada, confusão nas letras que têm forma semelhantes (u/n, por exemplo), confusão na leitura de palavras semelhantes, omissão de palavras, erros na leitura de palavras semanticamente semelhantes (exemplo, ler gato, em vez de cão), erros na leitura de palavras polissílabas e dificuldade com a gramática, incluindo o uso inadequado dos tempos verbais27.
    A dificuldade recorrente na escrita pode fazer com que o aluno com dislexia evite escrever, tenha problemas em realizar cópias de forma adequada e apresente um estilo de escrita manual inadequado27.
    Dificuldades ortográficas também são frequentes; mais precisamente, é comum que escreva foneticamente, omita o meio ou o final da palavra e escreva letras ou sílabas na sequência incorreta27.
    Diante de tantas dificuldades, é esperado que a criança com dislexia tenha dificuldade na compreensão da leitura27. Nesse sentido, o processo interventivo deve levar em consideração os fatores envolvidos nessa habilidade, de modo a se atuar de forma eficaz junto a essa população.
    Inicialmente, é importante que se tenha percepção de que na compreensão da leitura múltiplos processos cognitivos estão envolvidos, ou seja, primeiro é preciso que se reconheça as palavras e as associe aos conceitos armazenados na memória. Paralelamente, se desenvolve ideias significativas do texto e se extrai a conclusão, fazendo-se a relação entre o que foi lido e o que se sabe até então. Funções corticais (tais como atenção e memória), cognitivo-linguísticas e afetivos (autoconceito, autoestima, motivação, etc) também intervém nesse processo e, por essa razão, devem ser considerados ao se elaborar proposta de intervenção.
    Do ponto de vista prático, existem diversas abordagens que o professor e/ou psicopedagogo podem seguir como base de elaboração para um programa interventivo sistematizado no contexto escolar. Neste artigo será apresentada a proposta desenvolvida por Arandiga & Tortosa28, a seguir descrita, por se considerar que aborda várias habilidades que estão normalmente comprometidas no aluno com dislexia.
    Dificuldade na habilidade de decodificação
    a) No processamento fonológico: não reconhece ou identifica determinadas letras; não associa o grafema com o fonema; substitui, omite ou inverte a leitura de palavras.
    Estratégia didática de ensino-aprendizagem: Atividades de consciência fonológica; habilidades de segmentação linguística; atividades específicas para a correção de erros de exatidão na leitura (inversões, omissões, substituições).
    b) No acesso ao léxico: lentidão no reconhecimento de palavras; não reconhecimento de palavra.
    Estratégia didática de ensino-aprendizagem: atividades de fluência e velocidade; análise fonológica; identificação rápida; integração visual; prática de leitura reduzida (com aumento gradativo); leitura silenciosa (reconhecimento prévio).
    Dificuldade na habilidade sintática
    a) Módulo sintático (estratégias de processamento sintático): não combina o significado de várias palavras; não identifica sinais sintáticos para a construção dos significados; identificação e interpretação errônea dos sinais de pontuação; não faz uso de conhecimentos gramaticais; não estabelece relações causais entre distintas partes do texto.
    Estratégia didática de ensino-aprendizagem: formar e completar frases; responder a perguntas de frases simples; converter ilustrações em frases; concatenar frases; combinar palavras (nome + adjetivos, artigo + nome + adjetivo, etc.); sinais de pontuação; identificar, enfatizar graficamente, detectar erros, completar; trabalhar a entonação; inferir relações simples entre nome-pronome; comparar significados de frases simples concatenadas.
    Dificuldade na habilidade semântica
    a) Processamento semântico (extrair significado, integração na memória e processos inferenciais): não integra as informações de várias frases e, como consequência, não extrai informações do texto ou a informação extraída é escassa; não identifica significados a partir de chaves contextuais; não realiza processos de integração, resumo e elaboração; não faz deduções sobre a informação extraída; não contextualiza o significado das palavras.
    Estratégia didática de ensino-aprendizagem: comparar frases/parágrafos com significados semelhantes e contrários; atividades de chaves contextuais: temporais, espaciais, valorativas, descritivas, funcionais (equivalentes, de definição direta, de justaposição, de frases adjacentes, etc.); associar frases/ parágrafos a representações gráficas; associar parágrafos a resumos; resumir parágrafos breves; explicar um resumo; selecionar o melhor significado de uma palavra na frase; comparar significado de palavras.
    Habilidades atencionais
    a) Concentração: apresenta baixo nível de concentração durante a leitura.
    b) Mecanismos seletivos: a distribuição da atenção é inadequada; há maior ou menor concentração em partes da leitura.
    c) Fatigabilidade: a concentração é feita por breve espaço de tempo.
    d) Labilidade emocional: a atenção oscila entre momento de concentração adequada com momentos de leitura automatizada, com perda da concentração.
    e) Escassez de recursos atencionais: a escassa capacidade atencional impede a identificação de indicadores sintáticos e semânticos que possibilitem a compreensão.
    f) Metacognição: não há regulação da capacidade atencional para extração de significado do texto. Não apresenta consciência da natureza da tarefa, nem da estratégia atencional que precisa usar.
    Estratégia didática de ensino-aprendizagem: atividades específicas de atenção concentrada; graduar o tempo de leitura em função da persistência da atenção; aumentar paulatinamente a extensão dos textos*.
    Conhecimentos prévios
    a) Conhecimento específico: escasso conhecimento sobre o tema da leitura; vocabulário reduzido; conhecimento não organizado; conhecimentos frágeis armazenados na memória de longo prazo, mediante aprendizagem de simples associações mecânicas.
    b) Conhecimento da estrutura linguística do texto: escassos conhecimentos; não utiliza os conhecimentos; não identifica a informação relevante; não identifica a estrutura lógica da leitura.
    c) Metacognição: escassa ou nula consciência de quais são os interesses, motivações e objetivos da leitura e como afetam a compreensão da leitura; não sabe que estratégias de compreensão empregar e que utilidade pode ter; não sabe como regular o processo de compreensão quando tem dificuldade; não tem consciência de como compreender e o que pode dificultar a compreensão.
    Estratégia didática de ensino-aprendizagem: atividades de vocabulário; ampliação de temas de leitura; atividades de caráter gramatical; atividades específicas de ideia principal; associar títulos a textos e vice-versa; concatenar breves passagens de texto em um número reduzido de elementos (por exemplo, princípio e final, princípio, meio e fim); refletir sobre o ato de ler: para que, como se lê melhor, o que se pode fazer para compreender bem a leitura, reconhecer quando não está compreendendo, que fazer quando aparece uma dificuldade.
    Estratégias de compreensão
    a) Conhecimentos: desconhece que estratégia de compreensão utilizar quando lê.
    b) Uso: não utiliza adequadamente as estratégias de compreensão aprendidas.
    Estratégia didática de ensino-aprendizagem: treinamento das estratégias de compreensão da leitura: ideia principal; chaves contextuais; formulação de hipóteses; auto-questionamento; organização de gráficos; releitura; leitura recorrente.
    Conforme se pode constatar, a compreensão da leitura envolve uma série de habilidades, que devem ser identificadas e trabalhadas no contexto escolar, de maneira sistematizada. Essa conduta certamente favorece não só alunos com transtornos da aprendizagem, mas também todos os demais. Nesse sentido, chama-se a atenção para o que se denomina de Resposta à Intervenção (RTI), abordagem que vem se mostrando eficiente para intervenção da dificuldade de aprendizagem no contexto escolar.
    Resposta à intervenção (RTI)
    Atualmente, não se pode falar em processo intervertivo sem se considerar a abordagem denominada de Resposta à Intervencão (RTI). Trata-se de um programa instrucional, multinível, voltado para prevenção, identificação e intervenção das dificuldades de aprendizagem. Por meio do mesmo se pode identificar crianças com fatores de risco para transtornos de aprendizagem, como é o caso da dislexia. Conforme se verá a seguir, o programa exige que se realize avaliação, monitoramento do progresso dos alunos, bem como ajustamento das necessidades e intensidade do processo de intervenção, segundo a capacidade de resposta do aluno11,29.
    Etapas do RTI
  • Nível 1 (Núcleo de instrução): inicialmente, todos os alunos da turma são avaliados. Nesse momento, tem-se como objetivos: verificar se os alunos atendem às expectativas do nível que se encontram; identificar alterações nas habilidades avaliadas e investigar se há fatores de risco para transtornos de aprendizagem. Implementa-se, então, um programa de instrução, voltado para as alterações encontradas. Em se tratando de leitura, por exemplo, são trabalhados os seus principais componentes, ou seja, consciência fonêmica, compreensão, fluência e vocabulário. Nesse nível, estudos demonstram que a instrução é suficiente para a maioria dos estudantes que apresentam dificuldade em leitura e escrita.
  • Nível 2 (intervenção suplementar): nesse nível permanecem os alunos que não fizeram progresso no nível 1. A eles são dadas instruções suplementares. O monitoramento aqui também é implementado, de modo a verificar a resposta à instrução. Alternativas diferenciadas, relacionadas ao aumento da frequência e intensidade da intervenção, por exemplo, são implementadas, se o aluno não fizer progresso suficiente.
  • Nível 3 (Intervenção intensiva): permanecem os alunos que não evoluíram no nível 1 e 2. A esses é dada instrução individualizada e o monitoramento do progresso pode indicar necessidade de ensino especializado.
  • Ressalta-se que o RTI requer rigor na avaliação e intervenção, com o uso de método sistemático, cientificamente comprovado. Com relação à avaliação, por exemplo, testes e instrumentos específicos devem ser utilizados, não com o intuito de se fazer diagnóstico, mas sim para identificar áreas que necessitam ser trabalhadas por meio de intervenção dirigida.
    Adaptações em sala de aula
    Além dos aspectos anteriormente abordados, são necessárias também adaptações variadas no contexto escolar, de modo que o aluno possa evoluir no seu processo acadêmico. Tais adaptações devem ser implementadas, segundo as características e necessidade do aluno. Para fins de orientação geral, serão descritas a seguir algumas recomendações, que foram baseadas na proposta da International Dyslexia Association1:
  • Dar tempo extra para completar as tarefas;
  • Oferecer ao aluno ajuda para fazer suas anotações;
  • Modificar trabalhos e pesquisas, segundo a necessidade do aluno;
  • Esclarecer ou simplificar instruções escritas, sublinhando ou destacado partes importantes para o aluno;
  • Reduzir a quantidade de texto a ser lido;
  • Bloquear estímulos externos (visuais, por exemplo), se o aluno tende a distrair-se com facilidade com os mesmos. Pode-se usar como recursos: cobrir esses estímulos (numa folha ou planilha por exemplo), aumentar o tamanho da fonte e/ou aumentar o espaçamento entre as linhas;
  • Destacar (com caneta apropriada) as informações essenciais em textos e livros, se o aluno tiver dificuldade em encontrá-las sozinho;
  • Proporcionar atividades práticas adicionais, uma vez que os materiais normalmente não as fornecem em número suficiente para crianças com dificuldade de aprendizagem. Tais práticas podem incluir exercícios práticos; jogos instrutivos, atividades de ensino em duplas, programas de computador, etc;
  • Fornecer glossário dos conteúdos e guia para ajudar o aluno a compreender a leitura. Esse último pode ser desenvolvido parágrafo a parágrafo, página a página ou por seção;
  • Usar dispositivo de gravação. Textos, livros, histórias e lições específicas podem ser gravadas. Assim, o estudante pode reproduzir o áudio para esclarecer dúvidas. O aluno pode, ainda, escutar e acompanhar as palavras impressas e, assim, pode melhorar sua habilidade de leitura;
  • Utilizar tecnologia assistiva e meios alternativos, como "tablets", leitores eletrônicos, dicionários, audiolivros, calculadoras, papéis quadriculados para atividades matemáticas, etc;
  • Repetir as instruções e orientações. Alguns alunos têm dificuldade em seguir instruções e, assim, pode-se pedir que as repita com suas próprias palavras. Se estas tiverem várias etapas, pode-se dividi-las em subconjuntos, ou apresentá-las uma de cada vez. Quando as orientações são dadas por escrito, deve-se certificar de que o aluno é capaz de ler e compreender as palavras e o significado das frases;
  • Manter rotinas diárias, pois muitos alunos com problemas de aprendizagem têm dificuldade em organizar-se com autonomia;
  • Fornecer uma cópia das notas de aula (ou esboço) para aqueles que têm dificuldade em realizá-la com autonomia;
  • Combinar informação verbal e visual e proporcionar organizador dos conteúdos ministrados;
  • Escrever pontos ou palavras-chave no quadro-negro, antes de uma apresentação;
  • Equilibrar as apresentações orais, informações visuais e atividades participativas, o que inclui equilíbrio das atividades (em grupo, geral e individual);
  • Utilizar dispositivos mnemônicos para ajudar os alunos a se lembrarem de informações chave;
  • Enfatizar revisão diária. Este tipo de estratégia pode ajudar os alunos a fazer ligações com conhecimentos prévios;
  • Variar os modos de avaliação, ou seja, apresentações orais, participação em discussões, avaliações escritas, provas com múltiplas escolhas, etc;
  • Alterar o modo de resposta. Para aqueles que têm dificuldade de coordenação motora fina e/ou com a escrita manual, permitir diferentes modos de exposição do conteúdo (espaço extra para escrever, sintetizar conteúdos, atividades de múltipla escolha, exposição por meio de desenhos, respostas orais, etc.);
  • Posicionar o aluno próximo ao professor, longe de sons, pessoas ou materiais que possam distraí-lo, principalmente aqueles que tenham problemas com a atenção;
  • Estimular e ensinar o uso de agendas, calendários e organizadores. Com isso, o aluno poderá estar atento a datas e prazos de atividades escolares;
  • Estimular o uso de sinais para indicar itens importantes ou não dominados pelo aluno. Tal conduta pode, ainda, ajudar o monitoramento do tempo em testes, bem como o estado atual da sua aprendizagem;
  • Graduar os conteúdos a serem tratados, num nível crescente de dificuldade.
  • Destaca-se, por fim, que a escolha de uma ou mais adaptações deve ser cuidadosamente analisada pelo corpo docente e coordenação pedagógica, segundo a necessidade do aluno. No início pode haver necessidade da associação de várias, porém, espera-se que o número das mesmas diminua com o avanço do processo de aprendizagem, bem como com a autonomia do aluno. O importante é que o professor esteja atento ao que o aluno realmente precisa, que oriente os pais na melhor maneira de auxiliar em casa o trabalho pedagógico e que trabalhe em parceria com os terapeutas e profissionais que normalmente assistem à criança.

    CONSIDERAÇÕES FINAIS
    Procurou-se demonstrar neste artigo que o professor, na sua prática diária, é elemento essencial não só para a identificação dos fatores de risco da dislexia, mas também para o seu diagnóstico e intervenção. O sucesso do processo interventivo dependerá, em grande parte, da atuação da escola, já que é nesse contexto que a criança permanece a maior parte do seu tempo. Intervenções com especialistas são fundamentais e, certamente, serão necessárias no curso do desenvolvimento da criança com dislexia. Entretanto, deve-se ter clareza que se trata de um trabalho de parceria. Sem a mesma, corre-se o risco de se produzir fracasso escolar, com todas as consequências que isso envolve.
    Ressalta-se, ainda, que o processo de intervenção escolar não se encerra quando a criança com dislexia aprende a codificar e decodificar palavras e textos, já que a compreensão na leitura geralmente está prejudicada. Assim sendo, durante todo o processo educativo, a criança e/ou adolescente pode necessitar de atenção, muitas vezes individualizada.
    Apesar de todos os entraves vivenciados no nosso contexto educacional, considera-se que a intervenção psicopedagógica adequada no contexto escolar é possível e viável, desde que haja estudo constante, formação continuada e, principalmente, envolvimento e perseverança por parte da escola.

    REFERÊNCIAS
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    1. Pedagoga, Psicopedagoga, Psicomotricista. Mestre e Doutora em Ciências Médicas (Neurologia), pela Faculdade de Ciências Médicas (FCM)/Universidade de Campinas (UNICAMP), Pesquisadora do Laboratório de Pesquisa em Dificuldades, Distúrbios de Aprendizagem e Transtornos da Atenção (DISAPRE)/FCM/UNICAMP e do CIAPRE, Campinas, SP, Brasil
    2. Professora Associada III. Departamento de Neurologia - FCM/UNICAMP. Coordenadora do DISAPRE/FCM/UNICAMP, Campinas, SP, Brasil
    Correspondência
    Sônia das Dores Rodrigues
    Departamento de Neurologia
    Rua Tessália Vieira de Camargo, 126 - Cidade Universitária Zeferino Vaz
    Campinas, SP, Brasil - CEP 13083-887
    E-mail: rodrigues.sdd@gmail.com
    Artigo recebido: 23/2/2016
    Aprovado: 12/4/2016

    Trabalho realizado no Laboratório de Pesquisa em Dificuldades, Distúrbios de Aprendizagem e Transtornos da Atenção (DISAPRE) da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade de Campinas, Campinas, SP, Brasil.
    * Acrescenta-se que jogos diversos podem ser utilizados para a intervenção dos diferentes tipos de atenção (sustentada, dividida etc.)
     Fonte: http://www.revistapsicopedagogia.com.br/detalhes/21/dislexia-na-escola--identificacao-e-possibilidades-de-intervencao


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