Publicado em 16/10/2012
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Atualizado em 16/10/2012
Um programa de computador desenvolvido na Universidade Estadual de
Campinas (Unicamp) poderá auxiliar na aprendizagem de crianças e
adolescentes disléxicos. Por meio de atividades de manipulação da
linguagem oral que estimulam a pronúncia correta das palavras e as
memórias visual e auditiva, os portadores de dislexia poderão melhorar
seu desempenho escolar.
A dislexia é um transtorno neurofuncional genético e hereditário que
se caracteriza pela dificuldade no processo de decodificação das letras.
Essa condição pode comprometer a leitura, a escrita e a fala e provocar
uma defasagem inicial de aprendizado.
Segundo a fonoaudióloga Cíntia Alves Salgado Azoni, coordenadora do
projeto, os exercícios são muito importantes para diminuir as
dificuldades da criança com dislexia. “A dislexia acompanha o indivíduo
por toda a vida e, aos poucos, a pessoa vai criando estratégias para se
adaptar ao distúrbio”, diz, acrescentando que o
software, batizado de Programa de Remediação Fonológica (Prefon), ajuda a desenvolver esses artifícios.
O programa possui um menu com 11 atividades, que podem ser realizadas
aleatoriamente. Dentre elas, há jogos de identificação de fonemas
(sons) e de palavras que rimam umas com as outras e de construção de
vocábulos que tenham sílabas parecidas.

- O Programa de Remediação
Fonológica contém atividades que ajudam jovens disléxicos a falar, ler e
escrever melhor. (imagem: reprodução)
Para verificar a eficácia dos exercícios na aprendizagem de
disléxicos, foi realizada uma pesquisa com 62 crianças e jovens de 9 a
14 anos – metade deles com o distúrbio e a outra metade sem dificuldades
de leitura e escrita. O grupo com dislexia foi dividido em dois: um com
14 indivíduos que não realizaram as atividades e outro com 17 que
fizeram o treinamento.
O programa era usado uma vez por semana. Além disso, os exercícios
incluíam leitura de livro em voz alta, elaboração de uma redação
explicando o que se compreendeu da história lida e produção de um texto
sobre um tema específico. Ao todo, cada voluntário passou por 20 sessões
de 45 minutos cada: oito para prática com o
software, seis para leitura e as últimas seis para leitura e escrita.
Provas iguais foram aplicadas aos usuários antes e depois dos
exercícios. Os voluntários disléxicos que não realizaram as atividades e
os que não têm o distúrbio também fizeram as provas em dois momentos
distintos, para que os pesquisadores pudessem comparar seu desempenho
com o dos portadores de dislexia que passaram pelo treinamento. Os
exames avaliaram a pronúncia correta das sílabas e a consciência dos
fonemas de uma palavra, a velocidade e o tempo de leitura, a fluência e
os erros ortográficos.
Melhora no desempenho
Segundo Salgado Azoni, os estudantes que usaram o programa
apresentaram melhora em todos os quesitos avaliados. “Houve diminuição
no tempo de nomeação de cores, letras, dígitos e objetos – com destaque
para as letras, que foram lidas em 41,59 segundos na primeira prova e em
29,65 segundos na segunda prova”, afirma. Aqueles que não têm dislexia
levaram 23,26 segundos nessa tarefa, que consistia na nomeação de 50
letras, distribuídas em cinco colunas com 10 letras cada. Nas provas de
ditado e redação, o número de erros ortográficos diminuiu de 86,94 para
53,71 entre os voluntários que passaram pelo treinamento.
Os estudantes que usaram o programa apresentaram melhora em todos os quesitos avaliados
O desempenho das crianças e dos jovens disléxicos que não fizeram as
atividades foi em geral um pouco pior. No caso do tempo de nomeação de
letras, na segunda prova eles levaram 33,29 segundos, 3,64 segundos a
mais que aqueles que utilizaram o
software. Já a média de erros
ortográficos no ditado e na redação foi de 55,86 incorreções, 2,15 a
mais que as dos estudantes que realizaram os exercícios.
Por outro lado, em relação à velocidade de leitura oral, o desempenho
dos estudantes disléxicos que não passaram pelo treinamento foi melhor:
eles leram 52 palavras por minuto, 4,65 vocábulos a mais que os lidos
pelos usuários do
software. A pesquisadora ressalta, no
entanto, que houve uma grande evolução nesse quesito entre os que
praticaram os exercícios. “Foram 32,76 palavras lidas por minuto no
primeiro teste e, no segundo, esse número passou para 47,35.” A
velocidade de leitura dos que não têm dislexia é de 100,81 palavras por
minuto.
O programa está sendo usado desde março por quatro alunos que
participam de um projeto de inclusão digital coordenado por Salgado
Azoni no
Centro de Investigação da Atenção e Aprendizagem (Ciapre). “Agora a nossa intenção é comercializar o
software e adaptá-lo para
tablets”, finaliza a pesquisadora.
Fernanda Braune
Especial para a CH On-line
http://cienciahoje.uol.com.br/noticias/2012/10/aliado-contra-a-dislexia